Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?
Para pensar o real e o imaginário do corpo feminino
16/11/2017  07:48


Isabel Cristina Oliveira da Silva
belcrysos@hotmail.com
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/UFS)

Em um lugar do passado, numa terra distante, o espelho que despertava na madrasta da Branca de Neve o desejo insaciável pela juventude eterna, surge, hoje, com as mesmas intenções, mas em outros formatos. Na atualidade, as pessoas estão encantadas pelo gozo de si mesmo, o espelho assume a função de refletir o “altér ego”, ou seja, o grande outro, aquele que é desejável. Tenho a necessidade do ser vista, preciso do olhar do outro para existir!

Moderno e tecnológico, o espelho aparece em maior incidência no formato de programas televisivos, propagandas das empresas de cosméticos, revistas e sites de beleza. O padrão estipulado por tais meios de comunicação reduz a liberdade de escolha das espectadoras, induzindo-as a um caminho de desejos impraticáveis, no entanto, exaltados como possíveis à realização. Preciso ser vista, logo existo! Por isso, o espelho é meu cumplice, pois nele me “preparo” para ser vista pelo outro – o espelho é na verdade o próprio outro.

Espelho, espelho meu, existe alguém mais bela do que eu? Sim, minha rainha! Branca de Neve é agora a mais bela! Na versão contada pelos irmãos Grimm em 1812, o “altér ego” da madrasta má que invejou a beleza idealizada pelo espelho, desencadeou ações nocivas que culminaram em sua morte. A similaridade entre a fábula e a nossa sociedade, reside na manipulação dos corpos e seus pedaços – bundas, seios, cabelos – de mulheres normais, através dos espelhos.

O site da Revista Corpo a Corpo da Símbolo Editora e Comunicação Integrada S.A, publicou um horóscopo de beleza para o mês de dezembro de 2016. O referido mecanismo apresenta dicas a cada signo a serem adotadas pelas mulheres para que obtenham sucesso com seus corpos. Essa ditadura que acontece de maneira mascarada conduz muitas jovens ao desenvolvimento de doenças físicas e psicológicas, agredindo ferozmente a integridade feminina.

Inúmeras são as enfermidades, entre elas destaca-se a anorexia nervosa, transtorno característico pela redução deliberada de peso, tornando a pessoal vulnerável devido o pavor em engordar. Mesmo estando magra a mulher se vê gorda, de forma que restringe suas refeições, ocasionando desnutrição ou falência dos órgãos. A bulimia nervosa, também outra doença psicológica, configurada pela ingestão de alimentos e em seguida a expulsão destes, provoca a adoção de medidas extremas para diminuir os efeitos produzidos no ato da alimentação. A sensação de culpa é o principal mecanismo que leva as mulheres a induzir o vomito do que foi ingerido.

O vício em cirurgias plásticas, induzido pelos protótipos estabelecidos culturalmente, gera a insatisfação corporal, acarretando nas mulheres o sofrimento em esbanjar um corpo jovem, belo e magro. O almejo do físico refletido pelos espelhos, os quais, por sua vez, não são reais, desencadeiam – através dos procedimentos cirúrgicos – malefícios a saúde que podem levar a deformação do corpo e até a morte. Além das dietas alimentares, medicamentos e cirurgias, os discursos de beleza geralmente estão embutidos em orientações de atividades físicas, as quais praticadas de modo exagerado provocam desvios de comportamentos que vitimam os corpos.

São as políticas de gestão do corpo que norteiam os modernos espelhos, homogeneizando o belo e estigmatizando as pessoas. É alarmante como as imagens e mensagens da indústria da beleza propagadas pelas tecnologias atuam na subjetividade feminina, levando-as ao consumo e insatisfação. Esse processo figura e desfigura o olhar sobre si mesmo e sobre os outros.

É preciso quebrar os espelhos da vaidade exacerbada, do contrário, caberá a nós o destino fatalístico de morrermos envenenados, não pela vontade de comer a “maça”, mas pela falta de fome.



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GETEMPO é um espaço de divulgação científica. Publica semanalmente reflexões de estudiosos das Ciências Humanas. Iniciativa coordenada pela Profª. Andreza Maynard, Doutora em História pela UNESP, Bolsista CNPq/Fapitec-SE em modalidade DCR. O blog é uma parceria do GET/DHI/UFS - www.getempo.org - e da Infonet. Apoio: CNPq e Fapitec/SE.
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