A atuação dos Sonderkommandos durante a II Guerra
Grupos de prisioneiros que atuavam nos campos de concentração
29/03/2018  17:51


Liliane Costa Andrade
E-mail: liliane.costaandrade@outlook.com
Bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET/UFS)
Graduanda em História pela Universidade Federal de Sergipe (DHI/UFS)
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Andreza Santos Cruz Maynard (CODAP/ProfHistória/UFS)

Os sonderkommandos foram grupos formados por prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial, que atuavam dentro dos campos de concentração nazistas. Classificados como “privilegiados” estas pessoas representavam uma minoria nos campos e, em relação à maior parte dos presos, os integrantes dos sonderkommandos gozavam de um tratamento diferenciado (com melhores condições de alimentação, por exemplo), o que lhes proporcionava, em muitos casos, um tempo de sobrevivência um pouco maior.
Estes grupos, também conhecidos como Esquadrões Especiais, desenvolviam algumas funções dentro dos campos de concentração, a exemplo de varredores, lavadores, intérpretes e mensageiros. A partir disto, suas principais obrigações eram: manter a ordem entre os recém-chegados; retirar os cadáveres das câmaras de gás; classificar as roupas, os sapatos e os conteúdos das bagagens; transportar cadáveres para os fornos crematórios e cuidar do funcionamento destes; retirar e eliminar as cinzas.
Dois filmes que representam como funcionava o trabalho dos sonderkomandos são Cinzas da Guerra (The Grey Zone) e O Filho de Saul. O primeiro, lançado em 2001, conta a história de um judeu escolhido para integrar um Esquadrão Especial em Auschwitz, atuando como patologista (médico especialista no estudo de doenças).  O segundo, de 2015, se dedica a falar sobre um judeu que também atua como um sonderkommando no mesmo campo de concentração.
Em Cinzas da Guerra, a partir dos relatos de um sobrevivente, o judeu húngaro Dr. Miklos Nyiszl, são representados eventos reais que rodearam o 12º Sonderkommando de Auschwitz II-Birkenau. Com relação ao cenário, a película se desenrola em meio a alguns crematórios, onde se destacam o de número II e o de número III.
Ao longo de toda a trama, os integrantes do sonderkommando, durante o desenvolvimento de suas funções, se mobilizam em organizar uma rebelião para tentarem escapar do campo. Em determinado momento, ao fazer a higienização de uma câmara de gás, eles encontram uma garota que sobreviveu aos efeitos do Zyklon B (ácido utilizado no assassinato em massa nas câmaras de gás) e passam, de maneira escondida, a cuidar dela, evitando sua morte naquele momento. O fim do filme é marcado pelo desenvolvimento da rebelião, que logo é reprimida pelos oficiais nazistas e leva ao assassinato de todos os envolvidos, com exceção do Dr. Miklos Nyiszl.
Ao longo da película é possível perceber o enfoque da câmera em relação às chaminés dos fornos. Isso porque eram lá de onde saíam com intensidade a fumaça dos corpos queimados, que viravam o pó cinzento que inspirou o nome do filme. 
Outro longa-metragem que também retrata a realidade dos sonderkommandos nos campos de concentração nazistas é O Filho de Saul. Neste, o personagem principal, Saul, integrante de um Esquadrão Especial em Auschwitz, se utiliza de seu tratamento diferenciado esforçando-se em encontrar um rabino (líder religioso de comunidade judaica) para realizar o sepultamento de um garoto que sobreviveu à câmara de gás, mas foi morto posteriormente por um médico nazista. Além disso, assim como em Cinzas da Guerra, o filme também retrata uma rebelião, seguida de uma tentativa de fuga, que leva à morte dos envolvidos, incluindo Saul, que transporta consigo o corpo do menino, ainda na esperança de sepultá-lo.
Nesta película, em sua maior parte, a câmera focaliza o rosto de Saul, mostrando a realidade que ele observa no desenvolvimento de suas atividades, fazendo com que os horrores cometidos contra os judeus seja visto por um deles. A produção foi premiada, em 2016, com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Apesar de possuírem um tratamento diferenciado em relação aos demais prisioneiros, os integrantes dos sonderkommandos não escapavam à morte. Pelo contrário; havia uma preocupação para que estes não sobrevivessem, como aconteceu com o Dr. Miklos Nyiszl, e contassem o que presenciavam dentro dos campos.
O recrutamento para integrar os Esquadrões Especiais era realizado por psicólogos da SS (Schutzstaffel - organização paramilitar ligada ao partido nazista) assim que os prisioneiros chegavam e, o principal grupo que os compôs foram os judeus. As principais informações sobre o funcionamento dos sonderkommandos provém de depoimentos de sobreviventes, a exemplo do Dr. Miklos Nyiszl; de confissões dos “mandantes”, processados em tribunais; de civis alemães ou poloneses que tiveram algum contato com os esquadrões; e de escritos que eram enterrados. Em relação a isso, recentemente, foi divulgada uma notícia sobre uma carta enterrada em Auschwitz e escrita em 1944 por Marcel Nadjari, um grego que integrou um sonderkommando.
  O excesso de crueldade e a maneira desumana com relação ao tratamento oferecido aos judeus exposto em ambos os filmes podem se torná-los, em algum momento, bastante incômodos. Apesar disso, Cinzas da Guerra e O Filho de Saul são duas importantes produções cinematográficas na medida em que apresentam de maneira bem executada como se dava a atuação dos sonderkommandos nos campos de concentração ao longo da Segunda Guerra Mundial, retratando a realidade dos prisioneiros, com tratamentos distintos mas, na maioria das vezes, com o mesmo destino.

Para saber mais:
LEVI, Primo. Zona Cinzenta. In: Os afogados e os sobreviventes. Trad. Luiz Sérgio Henriques. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990, p. 17-38.



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GETEMPO é um espaço de divulgação científica. Publica semanalmente reflexões de estudiosos das Ciências Humanas. Iniciativa coordenada pela Profª. Andreza Maynard, Doutora em História pela UNESP, Bolsista CNPq/Fapitec-SE em modalidade DCR. O blog é uma parceria do GET/DHI/UFS - www.getempo.org - e da Infonet. Apoio: CNPq e Fapitec/SE.
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