Ano Novo. Velhos Erros de Sempre!
...cada um se achando a pior pessoa do mundo...
09/01/2017  07:44


Ele terminou com ela recentemente e, apesar das circunstâncias, ensaiavam um retorno. Mas cá entre nós, tem coisas na vida que nem deveriam ter começado ainda mais serem retomadas um dia, após um término. Mas como o ser humano é esse fluxo constante de incerteza, lá estavam eles se ligando há algumas semanas. Nada demais, só repassando os problemas da relação e vendo quem se dobraria ao outro. Como nós estamos acostumados a brincar de Deus, quando o assunto é amor, sempre caímos na tentação de achar que se o outro se converter a nossa vontade tudo estará bem. Mas bem para quem?

E assim foram feitas mais duas almas enganadas. Ela sabia que para voltar teria que aceitar os problemas de caráter dele. Já ele teria que aceitar que, às vezes, ela poderia ser um pouco infiel. Se é que me faço entender. Mas com as proximidades do Ano-Novo, aquele clima chato de que tudo precisa e vai mudar no dia primeiro de janeiro, os dois se programaram para uma viagem curta de reconciliação. Não iam falar nada a ninguém, por enquanto, viajaram, a priori sozinhos, mas lá na ponta do aeroporto já entrariam juntos na sala de embarque. Coisa de adultos que acham que enganam alguém.

A primeira encrenca já começou pra ver quem sentaria na janela. Como o voo era pelo dia, ela queria ver a cidade do alto, enquanto ele tinha pavor de viajar no corredor, encostado no carrinho que serve comida; alguma coisa entre um pequeno Transtorno Obsessivo Compulsivo e um pouco de birra. Como ela embarcou na frente acabou se sentando, deixando para ele a tarefa de colocar as malas no compartimento e mesmo reticente, sentar onda sobrava. Ele engoliu a seco e pensou: “castigarei deixando que ela mesma retire sua bagagem pesada da esteira ao chagarmos”. Nada cavalheiro para quem quer voltar um namoro.

No hotel, ela foi obrigada a aceitar que ele pagasse por um quarto mais simples. Como as coisas não iam bem financeiramente para a moça, a conta do hotel seria dele e assim, ela engoliu calada um hotel três estrelas, mesmo sabendo que ele tinha condições para bancar um seis estrelas se assim o quisesse.


Na primeira noite, dia 31, passaram a virada do ano em comum com outras duas mil pessoas, numa festa péssima ao som de um sertanejo universitário horripilante. Ele gostava do ritmo e ela da bebida do open bar. Concordaram que ali, naquela cidade, essa era a melhor entre as piores opções. Os fogos explodindo lá em cima, e nas respectivas cabeças deles a quase certeza de que aquela viagem não tinha mesmo de acontecer naquele momento. Ano-Novo, apenas um beijo, na empolgação do momento. Nem de língua foi. Coitados.

Voltaram para o hotel aos trancos e barrancos, cada um se virando como podia para se equilibrar nas próprias pernas. Quem olhasse de longe ou de perto diria com certeza se tratar de dois colegas, que mal se conheciam. Ninguém apostaria se tratar de um casal tentando reatar alguma coisa. Dormiram o dia inteiro, ele no chão e ela na cama de colchão duro. Ao anoitecer, tomados os respectivos banhos, se sentiram prontos para um jantar. Ligaram para alguns restaurantes e descobriram que naquela cidade, a melhor opção seria o restaurante do próprio hotel, o que para os dois tirava a obrigação de ter que escolher boas roupas. Desceram ainda de cabelos molhados.

Sentados, de frente um para o outro, não se viram ali um com o outro. Apenas algumas poucas palavras trocadas sobre as impressões pessoais de cada um a respeito da festa e só. Ela mal tocou na comida. Ele comeu sem vontade. A péssima decisão de virarem o Ano-Novo juntos não tinha funcionado de nada. Subiram para o quarto, cada um se achando a pior pessoa do mundo. Transaram sem vontade, num esquema puro de descarrego de angústias. Não adiantou tanta ideia, tanto dinheiro gasto numa viagem para nada.

Voltaram em silêncio. No aeroporto se despediram num abraço seco e tome mais silêncio. Não disseram a ninguém sobre a viagem.


Depois da primeira semana de janeiro, ele recebeu no celular uma mensagem dela como se nada tivesse acontecido, como se o Réveillon não tivesse acontecido, como se o término fosse apenas um intervalo entre dois capítulos de uma novela ruim. Ele visualizou e respondeu também como se nada tivesse acontecido. Trocaram mensagens sutis durante os dois dias seguintes, quando marcaram um novo encontro numa lanchonete perto de um cinema popular.

Algumas pessoas não entendem que o fim é o fim. Não adianta, pois viverão cometendo os mesmos erros a vida inteira, não importa se o ano é velho ou novo.


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Jaime Neto

Capricorniano. Aracajuano. Jornalista. Sempre me encontrei na palavra escrita. Gosto de trabalhar assessorando. Sou produtor. Adoro coisas bonitas. Não tolero discriminação. Não suporto burrice causada por preguiça de aprender.
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