Alexandre Menezes - Tributo a um colega e amigo
Uma perda irreparável para a nossa Academia
13/03/2017  01:20


Alexandre Gomes de Menezes Neto nasceu em Recife, em oito de julho de 1926, filho de Alcindor Soares de Menezes, um sertanejo de Petrolândia,

Alexandre Gomes de Menezes Neto ( 1926-2017)

 comerciário que se casou com uma filha de senhor de engenho já em decadência, por causa do debacle dos engenhos de açúcar bangüê. Sua vida foi de um garoto normal, de classe média, um pouquinho abaixo da média. Com nove anos seu pai faleceu e sua mãe teve que assumir a família com quatro filhos, ele era o segundo.
Mas Dona Alice da Costa Menezes, a mãe dele,  deu conta da família, a princípio fazendo o que aprendeu por diletantismo, que era a  costura e depois, graças ao parentesco de seu pai com Agamenon Magalhães, que foi interventor em Pernambuco, veio a conseguir  modesto emprego numa repartição pública de Recife, no Departamento de Saneamento. Pessoa firme e tenaz, mulher extremamente bem orientada, apesar de nunca ter ido a uma escola, Dona Alice possuía uma relativa cultura e colocou os meninos em bons colégios em Recife.
Alexandre foi estudar então no Colégio Padre Félix, em Recife, cujo proprietário era o padre Félix Barreto, que foi político de prestígio da UDN como deputado influente e chegou inclusive a assumir interinamente o governo de Pernambuco como presidente da Assembleia Legislativa. Nesse colégio, Alexandre fez todos os estudos até o terceiro ano científico. Próximo ao final do curso, com 17 anos, conseguiu um emprego no Departamento de Saneamento de Pernambuco, como Auxiliar de Escrita. Três anos depois, foi  nomeado para a Delegacia Fiscal como Exator Federal, cujo salário era razoável e, por isso, fez o  curso médico sem deixar o emprego. Na época, a Faculdade de Medicina do Recife era uma instituição particular e o que ele ganhava no  trabalho ajudava a pagar a Faculdade.
Formou-se em 1952 e  um ano depois foi  trabalhar na cidade de Princesa Isabel, na Paraíba, logo  dirigindo o Posto de Puericultura  Dom Hernandes. Fez curso de especialização em tracoma pelo Ministério da Saúde, uma doença prevalente à época. Terminado o curso foi nomeado para dirigir um posto de tracoma em Bananeiras, também na Paraíba. Durante sua permanência nessa cidade, dirigiu a maternidade local.
Em 29 de dezembro de 1954 casou-se com Dona Maria Leônia de Menezes  e três dias depois do casamento, arrumou as malas e foi para Recife onde fez nova especialização na doença.  Permaneceu em Bananeiras até 1957 transferindo-se para Belo Horizonte onde permaneceu por seis meses, realizando cursos no instituto Nacional de Endemias Rurais, depois  Instituto René  Rachout. Com a formação adquirida, poderia escolher um estado do Nordeste  para trabalhar.  Optou vir para Sergipe para cumprir uma “missão.”
O recenseamento geral da República de 1950 apontava Sergipe como o estado brasileiro que tinha o maior índice de cegueira  e a cidade de Frei Paulo com o maior número de cegos. Recebeu ele a missão, através do DNERU (Departamento Nacional de Endemias Rurais)  de descobrir as causas da cegueira que alguns atribuíam ao tracoma. Comandava o órgão em Sergipe o Dr. Pedro Rubens da Costa Barros. Estávamos em 1958 e depois de muito trabalho, visitando as escolas de todos os municípios sergipanos, Alexandre verificou que os casos de cegueira não eram decorrentes do tracoma e sim provocados por uma conjuntivite gonocócica neonatorum.
Para fazer a pesquisa concentrou o trabalho nas escolas, visitando todas elas, públicas e privadas, de todos os municípios do estado. Descobriu muitos casos de tracoma também, identificando a sua origem e operando todos os casos de sequelas que encontrava. Na época chegou a receber a crítica de oftalmologistas de Aracaju, que contestavam os números da doença, alegando que não viam esses casos chegando a seus consultórios. Nem poderia, porque o tracoma atingia mesmo era a classe mais pobre, que nunca chegaria aos seus consultórios. Quem quebrou a desconfiança foi o Dr. Lauro Porto, que o convidou para operar um caso no Hospital de Cirurgia e daí veio o reconhecimento do problema. Com a influência de Lauro, ele ganhou um aliado de peso.
Mas o reconhecimento de fato ao trabalho de pesquisa sobre o tracoma veio depois, quando o Dr. João Batista de Lima, que dirigia o posto de saúde do SESP, na capital, levou o colega aos irmãos Luiz e Antônio Garcia, que queriam ter mais conhecimento sobre o tracoma entre nós e que informações ele teria para mostrar. A enquete epidemiológica que ele fizera anos atrás foi então passada para eles e por iniciativa de Dr. Nestor Piva, publicada com destaque na Revista do Centro de Estudos do Hospital de Cirurgia, com o título “O tracoma em Sergipe”.
Em 1960, Alexandre fez também um trabalho portentoso sobre as condições gerais de saneamento em Aracaju, um levantamento sobre toda a condição sanitária de Aracaju e de suas residências, verificando água, luz e esgoto. Esse trabalho chegou às mãos do vereador Dr. Costa Pinto que fez uma ampla divulgação na Câmara de Vereadores. Devido à grande repercussão, o governador Luiz Garcia ordenou  à  DESO fazer as ligações de água de forma gratuita e passou a financiar também a luz elétrica. Essa ação trouxe uma grande melhoria para cidade. Com isso, o nome de Alexandre passou a ser comentado e enaltecido. Em 1963, o governador Seixas Dória o convida para o cargo de Diretor Geral de Saúde Pública, com status de secretário e com a missão de fazer o anteprojeto de criação da secretaria, que só viria a ser implementada, no entanto,  no governo seguinte, o de Celso Carvalho. Na deposição de Seixas, em 1964, pelo golpe militar, Alexandre não era mais o “Secretário”, já havia pedido  exoneração, desencantado com a burocracia e as dificuldades para atuar.
Com o advento da Faculdade de Medicina, os médicos Antônio Garcia e Fernando Sampaio visitaram o DNERU para convidar o Dr. Pedro Rubens para ser o primeiro professor do curso de parasitologia, após a recusa de Dr. Armando Domingues, que morava em Salvador onde possuía um laboratório de análises clínicas, de regressar para Aracaju. Pedro Rubens também não aceitou o convite  mas  indicou o nome de Alexandre Menezes que, por sua vez, vaticinou: “Eu vou, mas levo os colegas Cleovansóstenes Aguiar e José Nóbrega Dias comigo, para dividir a responsabilidade, cada um ficando com uma área”.
Garcia e Sampaio aceitaram a proposta dele e o curso de parasitologia foi ministrado  em 1963, no terceiro ano de fundação da faculdade. No ano seguinte, passou a fazer parte do segundo ano do curso médico. Sem receber salários por mais de um ano, lembro-me da conversa que tive com  Dr. Alexandre, tempos atrás. Dizia-me ele:  “ a gente assinava os recibos dos três primeiros meses do ano e mandava para o ministério, que só liberava o pagamento no final do ano. Mas aí chegava Antonio Garcia e Fernando Sampaio e diziam: aqueles recibos, que você assinou, o dinheiro chegou, mas abra mão, a faculdade tá precisando tanto, muitos alunos estão inadimplentes e é tão pouquinho, deixa pra lá. O que a gente podia fazer?”
A minha convivência fraterna com o Dr. Alexandre começou de fato em 1994, com a fundação da Academia Sergipana de Medicina. Ele foi o meu professor na Faculdade de Medicina, é fato, mas não desenvolvemos nenhum tipo de relacionamento. Participando do grupo inicial comandado por Gileno Lima, que preparou o anteprojeto de criação da Academia, Alexandre foi uma dos seus maiores sustentáculos morais e éticos.
Membro fundador da Cadeira 02, que tem como patrono o Dr. Antônio Militão de Bragança, produziu uma alentada biografia de seu patrono e foi o nosso maior “legalista”, evocando o cumprimento rigoroso do estatuto e do regimento do sodalício, sempre presente em todas as reuniões, ordinárias, extraordinárias e solenes, enquanto a sua saúde permitiu. Mesmo sem comparecer às sessões dos últimos anos, Dr. Alexandre mostrava-se atento e vigilante, ligando-me por diversas vezes para dar opiniões e me aconselhar sobre os caminhos a ser seguidos, como um farol a iluminar a nossa trajetória. Ficamos amigos e confidentes, em mútua admiração.
A morte desse grande vate,  ocorrida na terça-feira, 28 de fevereiro de 2017, vai encerrando aos poucos um ciclo de ouro da nossa Medicina, onde poucos  restam pra contar as histórias que ele sabia, que não eram poucas. Uma perda irreparável para a nossa Academia e para a Saúde Pública de nosso Estado. Sua vida e a sua obra serão eternas e o seu legado permanecerá sempre vivo na minha memória, por seus feitos, suas histórias e “causos”, sua irreverência e fina ironia, mas, principalmente, pela sinceridade e lealdade, a meu ver, as marcas maiores de sua personalidade.



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Lúcio A Prado Dias

Lúcio Antônio Prado Dias é médico, membro da Academia Sergipana de Medicina e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.
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