Entre Cila & Caríbdis.
Nem as eleições periódicas saciam os golpes.
15/03/2017  11:48


Costumo escrever de experiências, de viagens, alguns degustes, muitos desencantos, comparações, constatações, tudo a comprovar o mito da caverna de Platão: Quem sai fora dela pode ter os olhos vazados porque é perigoso conseguir observar o que não se deveria jamais ver.

Por que assim? Porque somos um povo que resiste à qualificação de bem ou mal usar, separar ou distinguir o por quê, do porquê e até do poraquê. 

Por aqui, qualquer coisa serve, até mesmo se “alimpar” na calcinha ou na cueca, sobretudo para quem resiste a se instruir, ilustrar ou educar, e que não ousa enxaguar as suas próprias ceroulas.

Em comum ausência de zelo higiênico, por regra geral, abominamos o ser apolíneo, aquele que estuda e se prepara para a vida.

Aqui mais vale a esbórnia dionisíaca e o bom salto por sagaz, do que a tenaz procura do saber persistente.

Somos um povo, em maioria, monoglota e analfabeto.

Não sabemos ler, muito menos escrever.

E o que dizer de contar, somar e subtrair, de multiplicar e dividir, se calcular é coisa de máquina?

Ah! Quanto tempo perdido com “piecewise function”, aquelas funções bem comportadas, em tantos furos a desafiar uma realidade contínua do pensar do nosso povo!

Para que lidar com variáveis complexas se qualquer transformação conformal é inútil, e melhor é locupletar  ao alcance próximo, na conquista de benesses, quando não açambarcar o pirão todo em farinha exígua?

Ah!, fala-me um leitor: -“Você escreve difícil! Muito difícil! Comecei a ler e parei. Tinha que usar um dicionário e eu não tenho um. Nunca precisei de um dicionário!”.

- ‘É lamentável e ótimo!’, penso comigo mesmo. – “Por acaso eu peço que alguém me leia! Eu jogo o texto como Demóstenes gritava seus ais, curando própria gagueira, gargarejando um paralelepípedo no palato, em discurso às ondas do Egeu”.

Egeu, aquele mar em que ainda não me banhei...

Eu que costumo mergulhar em todas as aguas, salinas ou doces do planeta; amenas ou geladas a saber, para invejar, inclusive, e consignar mais uma vez, por necessário, até para gerar imitadores, o que é muito bom.

Se é muito bom nadar no Oceano Atlântico por proximidade e rotina de descarrego iônico, melhor é flutuar no Pacífico, por imenso mas distante, e no Indico, por exótico, como fizeram assim Luiz Vaz de Camões e Vasco da Gama, não os confundindo com o comer “casmões”, hábito comum lá no Decão indiano, nem com o time de futebol carioca.

Ah! E os mares, tantos mares visitados; o Mediterrâneo, o “mare nostrum” dos romanos, o Mar do Norte, o  Adriático, tão apertado entre o cabo e a península...

Mas por que falar de cabos e penínsulas, se ninguém sabe o que é isso?

E o que dizer de tantos rios vadeados: do poluído Sergipe, do Vaza-barris, Piauí-Real, Japaratuba e São Francisco, degradados e desgraciados rios que estão a virar derradeiras cloacas sergipanas, casos notáveis de desleixos ainda não descobertos pela ONU.

E outros rios como o Itapicuru que Ivo do Prado nos perdeu para a Bahia; o Amazonas, o “Mar Dulce” que  Francisco de Orellana descobriu, em notável feito foz a dentro em contracorrente do Orinoco.

E outros ainda como o Tâmisa que banhou Shakespeare.

O Tejo onde as armas e os barões saíram ao mar para salga-lo com lágrimas de Portugal.

O Douro, o Ebro (não confundir com o ébrio, de Vicente Celestino, tenor nosso, nem com o requebro que é muito mais nosso).

O Minho, o Guadiana, o Guadalquivir, sevilhano e cordobés; o  Sena, da Cidade Luz, o Loire, do vale dos reis.

O Reno-Meno; o Danúbio, não tão azul, da Floresta Negra ao Mar Negro:  o Neva, lavando o Hermitage, palácio de Catarina e Pedro, o Grande, cenários de Dostoievski, e tantos personagens nos comezinhos desesperos humanos.

O Volga, e seus barqueiros cantantes, e tantos outros, faltando-me conhecer como o Dnieper, onde brigam russos e ucranianos, o São Lourenço, de Jacques Cartier (não confundir com Cartier, joias e relógios caríssimos), o Mississipi de Nova Orleans, o Nilo, dos Faraós, e o Jordão onde pregou Jesus.

Rios que pretendo vadear enquanto muitos só desejam na vida vadiar, ou cantar a musiquinha do “Deixa a vida me levar”.

Vadiando e passeando, continuo a estudar, comprar livros, destrinçá-los.

Dos livros falarei depois, daí o título “Entre Cila e Caríbdis”, que poucos ainda sabem o que seja.

Continuando, porém, a charlar, se gosto de viajar, adoro comer também; com pouco sal e sem açúcar. Desta última vez em Paris, decidi enfrentar o escargot. Gostei.

Aos que ficam entojados e indignados, sem querer ser presunçoso, mas abrindo o flanco para a caterva, direi a quem interessar possa, que prefiro degustar Escargot a deglutir Maniçoba. Coisa de “De Gustibus”. Cada um os tem para lamentação própria.

Mas, eis que me afasto de Cila e Caríbdis, o mote  inicial da minha reflexão.

Cila (Skylla) e Caríbdis (Kharybdis) eram dois monstros marinhos da mitologia grega, ambos femininos, que viviam em rochedos estrangulando o estreito de Messene, hoje Messina, entre a Itália e a Sicília.

De Caríbdis, dizia-se ser filha de Gaia (a Terra) e de Poseidon, o rei dos mares.

Caríbdis fora transformada em monstro porque roubara e devorara uma boiada de Heraclés (ou Hércules, para os latinos).

Tal boiada fora resgatada de Geríon, sendo um dos doze notáveis trabalhos de Heraclés.

“Zeus, o pai de Heraclés, irado com a voracidade de Caríbdis, fulminou-a com seus raios e a lançou no mar, transformando-a num monstro que sorvia enormes quantidade de água três vezes ao dia, juntamente com tudo que estivesse nas imediações, inclusive as naus e seus ocupantes” (MÁRIO DA GAMA CURY, Dicionário da Mitologia Grega e Romana. Editora Jorge Zahar, Rio de Janeiro. 1990. Pag. 68).

De Cila, dizia-se ter sido uma bela mulher por quem Glauco se apaixonou depois de desprezar a feiticeira Circe.

Como acontece nesses casos, Circe “pôs algumas ervas mágicas na fonte onde Cila costumava banhar-se, transformando-a num monstro cujo corpo das virilhas para baixo compunha-se de seis cães horríveis, enquanto a parte superior do corpo permanecia com era”.

Caríbdis e Cila posicionavam-se nas gargantas do estreito de Messina, disputando tudo que se apertava em suas corredeiras perigosas.

Conta-se que Ulysses, o herói homérico, na sua volta da Guerra de Tróia, em demanda de Ítaca, ao passar entre a Itália  e a Sicília, fora atacado por Cila  e Caríbdis, perdendo navios e homens, devorados por ambos os monstros, sendo poupado porque conseguira agarrar-se a um pequeno arbusto que o permitiu safar-se a muito custo.

Igual ao herói Odisseu, vejo a nau brasileira passando por águas tormentosas, desafiando Cila  e Caríbdis.

Estamos vivendo momentos perigosos, em tantas desmoralizações dos Poderes da República, e o povo deseja envernizar a barata mas não consegue sintetizar seu esmalte.

Somos um povo que tudo pode na passeata e na assembleia corporativa.

Nem as eleições periódicas, com turnos repetidos, em busca de maiorias absolutas, nos satisfazem, e os golpes parlamentares e/ou judiciais se sucedem.

Houve tempo em que a acalmia da razia só se fazia com a procura dos sabres nos quartéis; tempo da República da Espada, com Floriano Peixoto calando o Judiciário, e recebendo os revoltosos “à bala!”, ou dos idos distantes de Março de 1964, quando o poder foi recuperado, mas que findou tão execrado que nem Hitler, Mussolini e Pol Pot, o foram tanto.

Todavia, como disse por início, quem sai fora da caverna de Platão, pode ter os olhos vazados porque é perigoso conseguir observar o que não se deveria jamais ver.

E assim, ditadura à brasileira é como dobradinha paulista, ou sarapatel de bordel; é possível engoli-los mas não se digere em facilidade.

Depois, lamenta-se mais que regozija, afinal e por final, sempre resta uma  defecação ampla, geral e irrestrita.

Sobrou um tempo tão sombrio na absoluta interpretação da história pátria, que aquilo que não foi passou a ter sido, por conferência de veredito incontestável.

E, como terra esterilizada por salmoura, restou tão desprezível e desrespeitada, que nem hoje as casernas se disciplinam ou se fazem exemplificar como esperança salvadora.

Onde estará o arbusto de salvação entre Caríbdis e Cila? 



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Odilon Cabral Machado

Professor emérito da Universidade Federal de Sergipe, onde foi chefe do Departamento de Física e Diretor do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia. Vem colaborando como articulista com o Jornal de Sergipe, Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade e o Correio de Sergipe. É autor do livro de crônicas "Despercebido, ...mas não indiferente", e outros trabalhos de interesse acadêmico.
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