Escravos do Século XXI?
“Modus et rebus”, fala a sabedoria latina.
03/04/2017  11:28


O Jornal é antigo, JORNAL DO BRASIL, edição de 17 de agosto de 1891. Vivia-se o governo Collor, com abertura do mercado e pleno alvoroço de liberação dos ativos financeiros bloqueados por confisco.


O Ministro da Economia era um técnico respeitado; o Embaixador Marcílio Marques Moreira, confirmando o apreço do Presidente por um especialista  de perfil acadêmico, alguém de franco trânsito perante a classe banqueira internacional.


O empresariado nacional estava alvoroçado com a perspectiva de modernização do país.


O Presidente como sói costumeiro, seu antecedente e demais sequentes, recebia então o aplauso vazio dessa classe melhor abastada, que lhe pagava o lanche, o palanque e a música, requerendo subsídios e desonerações, ao tempo em que conspirava contra a classe trabalhadora, esta coitada, sempre culpada e violentada, desde a negra escravidão, por onerar o malfadado “custo Brasil”.


Neste toar, o JORNAL DO BRASIL, em reportagem de página inteira, alardeava com letras garrafais: “É preciso libertar os escravos do século 20”.


A frase fora pronunciada por José Carlos Cardoso Pires, um empresário no ramo da navegação que possuía então 58 anos, que alardeava algo bem atual nas discussões encaminhadas visando a terceirização do trabalho, e bem além com a revogação da CLT, no todo, ou em parte.

O jornal é de 1991, mas o assunto é o mesmo: um golpe contra o trabalhador.


Firmando sua vontade grupal, aquele Pires ousava tentar afanar o prato do trabalhador, como seu novo príncipe redentor: “Criar o ‘trabalhador livre’ é nova Lei Áurea”.


A entrevista me pareceu estapafúrdia, guardei a matéria para um estudo futuro.


Eis que agora, 26 anos depois, o tema volta no bojo de uma reforma não discutida pela sociedade, que se deseja implantar goela abaixo da classe obreira, qual purgante de Jeca Tatu.


Querem retirar conquistas do trabalhador, obtidas no tempo de Getúlio Vargas, alegando tratar-se de legislação caduca, culpada do pouco desenvolvimento das empresas, que gestariam melhormente as relações de trabalho, se o acordado entre o pescoço e o cutelo, vigesse melhor que a lei e seu libelo.


Esquecem que Vargas fora um sábio. Incompreendido, é verdade!


E ainda agora, afinal em nome de um ominoso esquecimento da história, propagandeia-se como deletéria sua obra trabalhista, afastada dos extremismos totalitários, por onde seguiu o mundo, que seria bem diferente se não fosse a Grande Guerra, com suas motivações revanchistas de ordem territorial .


Ora, se o grande mérito de Vargas foi conseguir pacificar Horácios e Curiácios, novos pascácios se arvoram em mudar a CLT, querendo que o negociado substitua o regulado por lei.


Dizem estes novos Acácios, que tal consolidação já não presta. Ela atravanca o país, e é algo a ser esponjada da nossa legislação, afinal inspirada na “Carta del Lavoro” de Benito Mussolini, traz consigo um germe fascista, nocividade a ser eliminada.


“Modus et rebus”, fala a sabedoria latina.


Se existe alguma verdade nesta crítica, se a modernidade exige a renovação das leis, se há realmente uma necessidade de “aggiornamento”, só para utilizar uma terminologia italiana muito em voga no Concílio Vaticano II, que seja discutida amplamente a mudança, mediante ampla consulta popular.


Não é agora, em meio a tantas denúncias e escândalos que um governo possa, sem voto, com rala aprovação e ilegitimidade fartamente denunciada, que se sinta fortalecido para retirar direitos adquiridos com longa luta pela classe trabalhadora.


Querem incendiar o país? Querem os empregados queimando as fábricas e quebrando as máquinas?


Não estão vendo que a uma fagulha iscada o fogaréu pode surgir, destruindo o pouco que foi construído.?


Escravos do século XXI é o que se planeja implantar nos conciliábulos destes bons moços, em seus discursos propagados nos debates televisivos.


E assim, por radicalidade e insensibilidade política, as reformas que seriam necessárias não serão estudadas nem debatidas.



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Odilon Cabral Machado

Professor emérito da Universidade Federal de Sergipe, onde foi chefe do Departamento de Física e Diretor do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia. Vem colaborando como articulista com o Jornal de Sergipe, Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade e o Correio de Sergipe. É autor do livro de crônicas "Despercebido, ...mas não indiferente", e outros trabalhos de interesse acadêmico.
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