Silêncio Notável.
O silêncio de Temer foi notável.
06/02/2018  18:28


Está no Eclesiastes: “Há um tempo para tudo e um tempo para todo propósito debaixo do céu... tempo de calar e tempo de falar”.


O Eclesiastes é o grande livro que delimita a fragilidade do ser e a fugacidade da vida.


Vaidade sempre será vaidade, embora nada exista de novo debaixo do Sol, ou dos céus, como assim quiserem, permitindo até um princípio-fim de eterno retorno.


O resto é vaidade, diz o antigo livro, que não foi composto para coibir discursadores em suas tribunas vazias, sobremodo em seções solenes de posse do Judiciário.


Não sei porque as cerimônias acontecidas no Supremo Tribunal Federal apresentam exibição inútil de verborragia mal inserida.


Fala o Presidente do Órgão, neste caso a Ministra Carmen Lúcia, representantes das corporativas Associações de Bacharéis, de Juízes e de Promotores, parando por aí, mas que poderia ser bem pior, não fosse o desprestígio com serventes, escreventes e serventuários em suas guildas, deglutidas a contragosto, excluídas pelo próprio cerimonial, que lhes negam não só a voz, o arroto, a opinião e a referência preambular dos discursos, como até a presença no auditório para exercitar seu perdigoto.


Opinião, mesmo em discurso mal elaborado via Ghost Writer discutível, é o juízo explicitado, pouco digno do próprio trabalho ou função. Como essa gente fala mal!


Um ideário que se manifesta nestas solenidades pomposas, ruinosas e vacuosas, por doideira inclusive, só para se ver um poder se despir do próprio pudor para se imiscuir na seara do outro poder, estimulando sicários, salafrários em tanto vigaristas reunidos e associados, para apunhalar a democracia, no caso o legislativo por vilipendiado e fedido, enquanto menoscabo do noticiário da vez, e o executivo, fragilizado e acuado, no canto do ringue, sofrendo todo tipo de sopapo, sem limite de regra, e sem poder invocar sua própria coragem e galhardia.


Que “ia”, poderia me dizer um tolo a título de deboche e ironia. “O Temer não merece apreço nem adereço”. Qualquer um que dele venha falar mal, merece intermináveis aplausos globais.


Aplausos que tem que ser gravados com o celular deitado para bem sair na telinha, porque a Rede Globo não conseguiu adquirir tecnologia para editar a imagem registrada na vertical. Coisa de preguiçoso incompetente, que está esperando a Apple lhe resolver o problema.


E o Presidente da República que na solenidade está por educação e gentileza, uma tolice boba, diga-se de passagem, por cenário desnecessário, bem podia ali nunca estar rejeitando a pose mirim inserida e desejada pelo cerimonial talar, seus autores e oradores, entre tantos atores menores, canastrões e figurantes.


Porque tem sido assim, por banal e ordinário, aproveitar uma solenidade comum, e rotineira, e que devia ser ordeira, para com pompa e circunstância atacar solertemente o poder executivo, ameaçando-lhe via palavras de ordem e de mando, quando não retirando mesmo a sua primazia do agir e decidir, prefigurando uma pretendida ditadura do judiciário, já percebida e denunciada, em seus semitons angelicais, e por demais perigosos.

Um perigo que se alastra em desprestígio ao outro Poder, o Legislativo, açoitado por ferrete cruel como casa de “mercancia e tolerância”.


Quando se sabe que todos têm culpa de seus erros, e o Judiciário vê-se agora na República, entre tantos heróis e paladinos justiceiros incomodados, revelando uma toga suja, enodoada, por uma corrupção bastante denunciada ao pé comum do mortal ouvido, queixa refletida e ruminada, mas temida por estar, por superior imoralidade, referendada e autorizada por seus conselhos, e seus companheiros, por decisões compadrias e/ou corporativas.


Ou seja: Para estes, e só para eles somente, prevalecia a primazia de possuir uma regra funcional diferente, mas vigente por vitalícia e despudorada, um despundonor a resistir; prevalecer, porque logo deixará o noticiário, afinal só se vê o que se deseja.

Todavia, o que se deseja mesmo é espinafrar o Legislativo por mandrião, o Presidente por “Temerário”, quando não golpista ou punguista, o Lula, condenado sem provas, ao desafio da lógica, o bom senso e a boa argumentação cartesiana, mas estigmatizado como corrupto, porque assim tem que ser, e foi referendado por junta julgadora protegida do povo, até para não lhe ouvir o apupo e o escárnio, e tudo o mais que a reprova e censura.


É preciso constatar para rejeitar tal postura saguim, o desrespeito sem proveito nem melhor aproveito, afinal depois de tudo feito, o desfeito e o malfeito nada mudam, viram talvez chulé ou larva-migram, aquele comichão pé-de-atleta, malcheiroso, mas gostoso de coçar. Ou seja; têm valia eterna, como amor safado de mal amante, tão infinito e inconsequente, enquanto durar.


Volto, porém, à cena sem me afastar do tema: A Ministra Carmen Lúcia, amparando-se em suas divisões blindadas afirmou: “Pode-se ser favorável ou desfavorável a decisão judicial pela qual se aplica o direito. Pode-se buscar reformar a decisão judicial, pelos meios legais e pelos juízos competentes. O que é inadmissível e inaceitável é desacatar a justiça, agravá-la ou agredi-la. Justiça individual fora do direito não é justiça, senão vingança ou ato de força pessoal”.


Alguém muito mais brilhante que eu, viu na tertúlia “carmenluciana” uma “acaciana” peroração que nem Machado de Assis conceberia, afinal a palavra lançada do púlpito, da cúria e da toga, quando assim merece, vulnera-se à crítica, ao apodo, ao agravo e ao menoscabo necessário.


Querer erigir uma regra para aviltar a razão, resvala o pensar julgador àquele que erigia fogueiras e cadafalsos, e quase torrou Galileu Galilei


Uma tolice dita no púlpito é menos tola que a recitada na sarjeta?


Em assim sendo, não é melhor calar que arrotar besteira?


Na fala togada, a Ministra delimitou o que pode ou não segundo seu pensamento ser respeitado, mostrando desconhecer a história em repulsa e rebeldia frente ao arbítrio, qualquer que seja a sua origem; da espada, da batina, da beca, da chibata ou da toga.


Ela desconhece a frase lapidar que Bertolt Brecht colocou nos lábios de Galileu Galilei: “A soma dos ângulos de um triângulo independe da vontade da Cúria”.


Não queira, ó Ministra, que todos sejamos carneiros a seu pensar, equivocado e parcial, sobremodo agora em que o judiciário em atitude lesa-pátria ousa extrapolar o seu poder; um desafio a gestos radicais em ampla e inconformada acrescência.


Uma excrescência que pode por tal talante se firmar como necessária e requerida, até para mostrar que nada há de novo debaixo do sol, a não ser uma excedente vaidade.


Vaidade que não envileceu o Presidente Temer, pois preferiu calar.


Melhor posou o Presidente no senáculo do Supremo: Ia falar, mas preferiu sabiamente chegar mudo e sair calado.


Não quis, entre outras coisas, posar melhor fala que sua vizinhança.


Iria incomodá-los com uma aula de verve e de verbo, sem pauta, roteiro ou fantasia, um improviso, como não houve nenhum, a cobrar valor, invocando o bem feito à ordem, colocando cada qual no seu quadrado, como assim deve ser.


Preferiu silenciar. Nada dizer. Sair sorrindo apenas. “Há tempo de falar e de calar”, como reza o Eclesiastes.


Sua missão ele a sabe muito bem, e aquele entorno nos seus emolumentos e pecúnias nunca dir-lhe-á amem.


Quer aprovar a Reforma da Previdência apenas. E o povo ali presente não a deseja.


“Acabar as benesses impossíveis para o erário? Nunca, jamais, em tempo algum!” -  Gritaria a galera se tivesse oportunidade.


Se o Presidente silencioso não conseguir aprovar uma nova previdência, o Brasil prosseguirá pior, resistindo ao seu mandato reformista e realizador, que não teme desagradar gregos, troianos e tantos sem tutanos, que inúteis resistem, em conspícuos enganos, tão bem urdidos, quão perversamente planejados. 


Todavia, como bom cego que vê somente o que deseja, a grande imprensa não viu o notável silêncio de Temer; nem o seu sorriso na saída. Não virou notícia; não existiu.


Talvez estivesse consigo, a dizer, sem externar: “Vim Presidente e continuo Presidente”.


Algo parecido como dissera o Ministro Costa e Silva: “Vou ministro e volto ministro”, a tantos que o temiam imprensa afora, isso em outros tempos tenebrosos.


O Silêncio de Temer foi notável.



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Odilon Cabral Machado

Professor emérito da Universidade Federal de Sergipe, onde foi chefe do Departamento de Física e Diretor do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia. Vem colaborando como articulista com o Jornal de Sergipe, Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade e o Correio de Sergipe. É autor do livro de crônicas "Despercebido, ...mas não indiferente", e outros trabalhos de interesse acadêmico.
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