Trump, México e a anti-globalização
O Nafta e a onda anti-globalizante
30/08/2017  09:01


Nas últimas semanas, entre os dias 16 a 20 de agosto de 2017, houve a primeira rodada de renegociação do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (TLCAN, na sigla em espanhol, ou NAFTA, na sigla em inglês), cujos rumos e decisões representam reflexos ao comércio internacional e seus agentes e a pressão de forças o levam ao avanço e retrocesso. Diante dessa arena de negociação que envolvem México, Estados Unidos e Canadá, põem-se nas mesas propostas para a continuidade ou o suspiro daquele que é o acordo econômico regional que maior mobiliza valores e de integração comercial, cujo epicentro virtua perante os Estados Unidos. Enquanto México e Canadá propõem um aprofundamento do acordo, o presidente dos Estados Unidos afirma via twitter que o "rasgará". 

A proposta de renegociação, prevista no próprio tratado, já vinha sendo debatida dentro do duelo presidencial estadunidense protagonizado entre Donald Trump e Hillary Clinton. O vitorioso e agora presidente dos Estados Unidos, Donad Trump, propôs em sua plataforma a retirada do país do Tratado-Transpacífico (TTP, em sigla) e uma renegociação do NAFTA, alegando vantagens desleais que os outros membros, em especial o México, levaram em relação aos Estados Unidos nos mais de 20 anos do acordo, acusando os mexicanos de “roubarem” as fábricas e os empregos do povo “americano”. Tal posicionamento e declarações do presidente, e de parte de seus eleitores, trouxeram à luz uma forte crítica ao processo de globalização produtiva que existe desde o final dos anos 1960, e como países tomam vantagens com seus baixos salários para atrair em empresas estadunidenses e que retiram o emprego do povo.

Esse discurso muito debatido no ano passando durante as eleições de fato tornou-se política. O descontento da população perante o desemprego e alterações no modo de acumulação de capital que divergiu, em especial a partir dos anos 1970, do padrão conhecido do “sonho americano” encontraram eco no discurso político inflamado de Trump, cujo o principalmente alvo foram os símbolos da alternativa de livre-comércio assinalados e preteridos pelo partido rival, os Democratas: os já citado TTP e TLCAN. A canalização e efetivação da recusa a esses tratados pela população e atual executivo tem dados consistentes para basear essa problemática: os empregos no setor industrial no período de 1994-2016 nos Estados Unidos decresceu em pouco mais de 30% dos postos de trabalho.

Ainda seguindo pelos dados fornecidos por David Floyd, da Investopedia, há de se notar parte da evolução e importância adquirida pelos países na economia intra-acordo. Significativo é o crescimento de 255% entre México e Estados Unidos entre 1993-2015 e de 432% entre México e Canadá no mesmo período. Tal número poderia indicar que o grande ganhador do acordo, de fato, haveria sido o México e que se tem tido sérios desequilíbrios dentro das benesses distribuídas entre os membros. Entretanto, o olhar mais acurado demonstra que a profundidade do caso detém maiores nuances a serem examinadas. Ainda seguindo o estudo de Floyd, dentre os 3 membros, o México é o país que teve o menor crescimento real de renda per capita desde 1994- na verdade um processo que quase estagnação. Para manter-se competitivo e atrativo ao capital internacional, em especial o estadunidense, os governos mexicanos têm seguindo com políticas de forte controle inflacionário, o que afeta diretamente o valor do trabalho para a atração de empresas estrangeiras e de produção. O resultado tem sido o avanço das empresas montadoras de bens manufaturados na fronteira norte entre os EUA e o México, cujos efeitos sociais, dentre outros, aplicam-se na concentração geográfica da renda neste país.

Além do mais, a balança mexicana pós-TLCAN tem demonstrado cada vez a dependência estrutural e produtiva que este Estado tem tido em relação ao seu vizinho nortenho. Mais de 80% das exportações mexicanas são destinadas exclusivamente aos Estados Unidos, dentre eles automóveis montados e derivados do petróleo. Essa alta dependência torna o país vulnerável a qualquer movimento que impeça o livre-fluxo comercial dentro do bloco, tal como tem sido proposto pelo atual governo. Trump, nesse ponto, acerta o México com dois grandes golpes em sua estratégica comercial, ao buscar redefinir o TLCAN em termos mais protecionistas e ao retirar os EUA do TPP, acordo o qual o México é partícipe e buscava servir de eixo dentre a relação Ásia-Pacífico, diminuindo quiçá sua pauta exportadora unilateral. Se em 2014 o ex-chanceler mexicano, Jorge Castañeda, esperava para o futuro do TLCAN o avanço ao ponto de livre-circulação de pessoas para a reparação de seus entraves, hoje é notório o forte retrocesso no processo quando se travará uma larga negociação para, talvez, manter o acordo como está.

O efeito Trump nessas negociações, como já afirmamos, é reflexo do sentimento antiglobalização que tem sido presente nos centros do mundo e que demonstram um forte revés se comparados àqueles que ocorriam nos anos de 1990 e início dos anos 2000. Apesar de ambos similarmente criticarem o acúmulo de lucros espúrios sobre grandes empresas e condenarem o estado espúrio de vida o qual o cidadão comum está relegado, o alvo dos antigos anti-globalizantes focava no capitalismo voraz e sua segregação social, já o atual foca nos empregos retirados por imigrantes e depõe a culpa nos países em que são explorados pelas empresas. O atual momento antiglobalização mostra o lado xenófobo e de conservador que ainda se mantém na sociedade ocidental, exemplificando na Europa o episódio do Brexit e, nos Estados Unidos, o TLCAN. Os Estados Unidos, especificamente, têm ainda o traço do preconceito ao povo hispânico, em especial os de origem mexicana, dentro de sua sociedade, divergindo do principal ponto para a problemática da falta de emprego que é a descentralização produtiva causada pelas próprias empresas em busca de lucros, processo levado por questões privadas e a partir da racionalidade do lucro.

Construir muros, criar barreiras tarifárias e cortar tratados não é a solução para o problema central das consequências que o acúmulo de capital gera. O grande ponto é que a massa de dessatisfeitos agora urge do centro global com um discurso conservador, modificando o alvo de sua ira para puramente o sistema e sim para uma etnia, um país, uma região ou religião, mesmo em países que foram formados por imigrantes. Com os avanços de “machine learning” e inteligência artificial que vem sendo desenvolvidos, o capital conseguirá se acumular nos termos produtivos de maneira ainda mais exploratória e ampliando a desigualdade. O sistema em si transita para um caminho mais profundo de choque entre as forças sociais, em que o ponto maior de desigualdade manterá o rumo maior para a incerteza e radicalismo. O TLCAN é apenas uma amostra disso.



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Roberto Teles

Mestrando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP). Também é membro Observatório de Regionalismo, vinculado à Rede de Pesquisa de Regionalismo e Política Externa.
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