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TOBIAS BARRETO: BIOGRAFIA
Luiz Antonio Barreto
Tobias Barreto de Meneses (7-6-1839/26-6-1889) nasceu na
Província de Sergipe, na vila de Campos, dos sertões do Rio Real, fronteira
territorial desanexada da Bahia em 8 de julho de 1820, para onde costumavam
fugir os negros escravos, que terminavam agrupados nas Santidades de Palmares,
Carnaíbas, nos sertões próximos de Riachão. Mulato, filho de Pedro Barreto
de Menezes e Emerenciana Maria de Jesus, estuda as primeiras letras em Campos,
seguindo para Estância, para cursar a cadeira de Latim com Domingos Quirino.
Era ainda um jovem, com 15 anos, quando conclui, em Lagarto, com o Padre José
Alves Pitangueira, o curso de Latim, concorrendo, no mesmo ano de 1854, para o
preenchimento da vaga de substituto de Gramática Latina, em decorrência da
morte de Manoel Felipe de Carvalho. Em Maroim, onde faz o concurso, recebe
titulação para substituir, em qualquer parte da Província, as aulas de
Gramática Latina. No entanto, não foi nomeado. Permanece entre Lagarto e
Campos, até fazer novo concurso, em fins de 1856, para nova vaga de Gramática
Latina, agora na vila de Itabaiana. A partir de janeiro de 1857 chega para
ensinar em Itabaiana, permanecendo, com algumas pequenas interrupções de
viagens a Campos, até 1859, sendo já portador de uma licença de seis anos,
concedida pela Assembléia Provincial, para fazer o curso jurídico fora de
Sergipe. Antes, porém, mantém contatos com o Seminário da Bahia, assistindo
aulas de filosofia do Frei Itaparica, de abril a dezembro de 1861. Sem
condições de sobrevivência, Tobias retoma a Campos e somente em final de 1862
empreende viagem para Pernambuco, para cursar Direito na Faculdade do Recife.
Na viagem, passa em Maceió e apresenta-se à imprensa
alagoana como bolsista do Governo da Província, professor de Latim, indo
estudar Direito no Recife. Assistindo a um espetáculo da Sociedade Dramática
Particular Maceioense, no dia 29 de novembro de 1862, Tobias grita, da platéia:
“Camões à cena”, chamando ao palco o ator que interpretava o poeta Luiz de
Camões, no texto de Burgain. Diante dele, de pé, Tobias Barreto declamou poema
de homenagem ao grande poeta luso. Um dia antes, a 28, Tobias fizera publicar no
Diário do Comércio o longo poema " Veni de Libano, Sponsa Mea...”
com quinze estrofes. Ali, naquela rápida escala do navio que o conduzia para o
Recife.
Chegando ao Recife, Tobias Barreto afirma sua condição de
poeta, dedicando à cidade, que ele chama de “cabocla civilizada”, o poema
“À Vista do Recife”, entrada triunfal para o condoreirismo que iria marcar
sua trajetória poética de romântico da quarta geração. É o poeta que
domina os primeiros anos de Tobias no Recife. Poeta inflamado, conclamando o
povo para a luta, tendo como mote a guerra do Paraguai. É ele que devolve aos
pernambucanos a capacidade de crer, novamente, no futuro, depois das derrotas de
1817, 1824, 1842 e 1848. Nas poesias do sergipano flui a convocação
patriótica, que recebe do povo mais que o aplauso nas ruas, nos teatros, pelos
locais públicos, a consagração literária, afirmando um talento que rivaliza
com Castro Alves, poeta da Bahia, Vitoriano Palhares, poeta de Pernambuco, e
outros jovens embriagados na beleza da arte poética.
A partir de 1865 busca novamente o magistério, concorrendo
com o Padre Félix Barreto de Vasconcelos à cadeira de Latim do Curso
Preparatório, anexo à Faculdade de Direito. Vai bem nas provas, mas fica em
segundo lugar. Em 1867, noutro concurso, para a cadeira de Filosofia do Ginásio
Pernambucano, conquista a primeira colocação, mas em seu lugar é nomeado
José Soriano de Souza, já doutor em medicina e em filosofia pela Universidade
de Louvain, na França, pelo fato de ser casado e Tobias solteiro. Este último
concurso iria pesar, decididamente, nas posições futuras do mulato sergipano,
de crítica ao seu concorrente.
Em 1869, na Oratório do Engenho Riqueza, do seu sogro João
Félix dos Santos, Tobias contrai núpcias com Grata Mafalda dos Santos. No
mesmo ano, no Recife, termina o curso de Direito, já com nome feito de poeta,
orador do povo e critico de religião e de filosofia, com incursões de crítica
de direito. Casado e formado, enfrenta a realidade da vida e tira sustento dando
aulas particulares. Em artigos publicados em A Regeneração, O Vesúvio,
Correio Pernambucano e Jornal do Recife, mostra sua evolução religiosa e
filosófica, tornando contato com autores alemães, protestantes, divulgando-os,
pela primeira vez, nos jornais recifenses. Em 1870, nos jornais O Liberal e O
Americano,faz sua profissão de fé política, defendendo os
princípios do liberalismo que abraça, filiando-se ao Partido Liberal, que
passa, com seus artigos, a defender, na luta disputada com os adeptos do Partido
Conservador, então no poder. Ainda em 1870 enfrenta a pena enfurecida de Pedro
Autran da Mata Albuquerque, do jornal O Cat6lico, polemizando sobre
questões religiosas. Entrincheirado no O Americano, de sua propriedade,
Tobias rebate O Católico e assume a propaganda abolicionista e
republicana.
Em 1871 deixa o Recife e vai para Escada, pequena cidade da
mata sul pernambucana, cercada por 120 engenhos de açúcar, e que aquela época
era termo da comarca de Vitória do Santo Antão. Advogado, por convite do Juiz
dos Órfãos assume o lugar de Curador Geral dos órfãos, senão, mais tarde,
Juiz Municipal Substituto. No fórum de Escada as audiências são também
consagradoras. O orador revela-se ao povo e este acompanha nas audiências o
brilho do advogado. Em 1874 cria seu primeiro jornal ― Um Signal dos Tempos―, editado
em tipografia própria. Os autores alemães são estudados e revelados aos
leitores. No mesmo ano, convida os escadenses à organização de uma Sociedade.
Em 1875 publica o primeiro livro― Ensaios e Estudos de Filosofia e
Crítica―, reunindo artigos publicados na imprensa do Recife.
Ainda em 1875 é redator e editor de um jornal em alemão ― Der
Deutscher Kaempfer ― (O Campeão Alemão), “periódico literário e
acidentalmente político, destinado à expansão do germanismo no norte do País”.Com
esse jornal Tobias pensava “ajudar à nossa pátria entrar na grande e livre
corrente do movimento intelectual alemão”, como anunciava no prospecto que
precedeu, em 1o de julho de 1875, o lançamento do jornal. Tanto o livro quanto
o jornal criaram dificuldades para Tobias, já marcado pelas suas idéias
avançadas em matéria de religião, de filosofia e de direito.
Em 1877 funda o Clube Popular Escadense, no qual pronuncia o
célebre “Um Discurso em Mangas de Camisa”, que é a um tempo o mais
verdadeiro diagnóstico da vida política, econômica e social de Escada, de
Pernambuco, da região nordestina e do Brasil, e plataforma de resistência
cívica e de organização da sociedade. Em 1878 é eleito deputado à
Assembléia Provincial, representando Escada e o Partido Liberal. Mais uma vez o
povo o aclama como grande orador, fazendo com que o jornal conservador O Tempo
compare a Assembléia a um teatro, Tobias ao artista e o povo das galerias
aos freqüentadores enfeitiçados pela arte. Na Assembléia, o deputado tem
oportunidade de defender a aprovação de ajuda, em forma de bolsa de estudos,
para que duas moças cursem medicina nos Estados Unidos ou na Suíça. O atraso
dominante, que fazia a mulher inferior ao homem, deu a Tobias a oportunidade de
provar a atualização de suas leituras científicas, em defesa da mulher e de
condenação ao preconceito. Indo mais adiante em sua posição, Tobias Barreto
apresenta projeto de criação do Partenogógio do Recife, escola superior,
profissionalizante, para moças, num pioneirismo que causou forte reação
dentro e fora da Assembléia.
Ao concluir o mandato, em 1879, Tobias não consegue
reeleição, mas aceita novo mandato popular, desta vez como vereador à Câmara
de Escada. Não exerce o mandato, pois fora nomeado, em abril de 1880, juiz
Municipal Substituto. Permanece em Escada, editando seus jornais, a revista Estudos
Alemães, e ampliando os contatos intelectuais com figuras brasileiras e
alemãs, publicando artigos, ensaios e correspondências em diversos jornais da
Alemanha e de língua alemã editados no Brasil, como o Germânia, de São
Paulo, a Koseritz Deutsche Zeitung, de Porto Alegre.
Envolvido com questões de justiça, com herdeiros do
espólio do seu sogro, alforria escravos e tem sua casa cercada, num episódio
que quase lhe custa a vida. Reage, protesta, registra na imprensa as agressões,
mas termina cedendo aos poderosos da Escada, retornando ao Recife, em agosto de
1881. Publica, neste mesmo ano, Dias e Noites, livro de poesias,
consolidando sua obra poética. Dando aulas particulares, publicando artigos em
jornais, Tobias espera a oportunidade de dar maior dimensão ao seu talento
reformador. Em 1882 surge a sua grande chance, concorrendo a uma cadeira de
Lente Substituto da Faculdade de Direito do Recife. O concurso, acontecimento
memorável na vida daquela escola, repercutiu em todo o País. Nomeado, Tobias
é mentor intelectual da mocidade acadêmica, renovando conceitos filosóficos e
jurídicos, a partir da cultura e da ciência alemã, coroando o seu persistente
e consciente germanismo, como ferramenta revolucionária.
Em 1883 publica a primeira série dos Estudos Alemães e um
discurso de paraninfo, despertando imediata reação dos padres do jornal Civilização,
do Maranhão. É uma polêmica forte, traumática, na qual Tobias desanca a
Igreja e a sua administração, ao tempo em que recebe todas as críticas e
insultos, pessoais e intelectuais. Mais uma vez a mocidade está ao seu lado e
protesta contra as grosseiras manifestações de animosidade, de alguns
desafetos do mestre da Faculdade de Direito. Já aquele tempo, citado por
Haeckel como parecendo pertencer à raça dos grandes pensadores, Tobias Barreto
se torna a maior figura de intelectual do Recife, chefiando o movimento de
renovação que, segundo Graça Aranha, emancipou o Brasil.
A Escola do Recife prosperou com Tobias e com seus
seguidores, jovens ardentes de liberdade, propagandistas da abolição da
escravatura, da proclamação da república, democratas e socialistas, que
voltavam aos seus Estados e se alistavam nas justas causas da liberdade,
reagindo às múltiplas formas da dominação senhorial. Doente, Tobias
permaneceu poucos anos no magistério da Faculdade. Mas nos jornais continuava
vigoroso combatente, defendendo idéias novas. Em 1889, atendendo a convite do
editor da Livraria Francesa, faz o prólogo e as notas da Gramática Latina, do
Padre Félix Barreto de Vasconcelos, revelando os dotes de latinista, com a
mesma maestria com que, em 1883, ampliara a Gramática Portuguesa de
Castro Nunes. Ainda em 1889 edita a segunda edição, ampliada, dos Ensaios e
Estudos de Filosofia e Crítica. Sua bibliografia estava agora ampliada, com
o mesmo êxito que tivera Menores e Loucos, de 1884, Discursos, de
1887, e Questões Vigentes de Filosofia e Direito, de 1888, além de
outros pequenos trabalhos e das duas monografias em alemão, de circulação
restrita.
O grande legado de Tobias Barreto foi em dois sentidos: um, o
da sua obra crítica, aberta, roteirizando a atualização do pensamento
brasileiro; outro, o dos seus seguidores, que continuaram levando o Brasil a
afirmar uma cultura transformadora, própria e ao alcance dos brasileiros.
Tobias foi, antes de tudo, um escritor de jornais, um colaborador freqüente,
ágil, que sabia da velocidade da imprensa como vanguarda das novidades
transformadores. Estão nos jornais recifenses idéias e nomes dos grandes
pensadores do tempo de Tobias, muitos dos quais ainda hoje são rigorosamente
atuais e merecem citação. Estão nos jornais da Escada os grandes temas e os
assuntos da vida cotidiana do município, na síntese de uma participação
política notável, de teórico da organização social.
Ao morrer, em 1889, Tobias deixou viúva, nove filhos e uma
monumental biblioteca, mais tarde adquirida pelo Governo e incorporada à
Faculdade de Direito do Recife, da qual constavam cerca de duzentos títulos em
alemão, de autores com os quais o pensador sergipano mantinha estreito contato
de leitor e de crítico. Morrendo na miséria, socorrido pela generosidade de
alunos, amigos e admiradores, Tobias Barreto deixou uma lição e um exemplo que
o Brasil não esquece e que as novas gerações de brasileiros têm, certamente,
como fonte de inspiração para resistir.
No Recife, perdidos ou desaparecidos, os artigos, ensaios e
poemas de Tobias Barreto estão nos seguintes jornais e periódicos:
-
Ensaio Literário, 1864
-
O Futuro, 1864
- A Palmatória, 1865
- O Acadêmico, 1865
- Revista Ilustrada, 1866
- A Luta, 1867
- A Regeneração, 1868
- O Vesúvio, 1869
- Correio Pernambucano, 1869
- O Americano, 1870
- A Crença, 1870
- O Liberal, 1870
- O Movimento, 1872
- A Província, 1872
- Jornal do Comércio, 1872
- Escola, 1874
- O Tempo, 1875
- O Século, 1878
- Correio da Noite, 1879
- A Lira, 1881
- A Estação Lírica, 1882
- Homenagem a Carlos Gomes ― n0 único ― 1882
- A Tribuna, 1882
- O Sabara, 1883
- O Industrial, 1883
- Folha do Norte, 1883
- A Arte Dramática, 1884
- Revista das Artes, 1885
- A Academia, 1888
- Homens e Letras, 1888
- Diário de Pernambuco, em várias épocas.
- Em Escada, Tobias redigiu e editou:
- Um Signal dos Tempos, 1874
- A Comarca de Escada, 1875
- Devaneio literário, 1875
- O Desabuso, 1875
- Der Deutscher Kaempfer, 1875
- O Povo da Escada, 1876
- O Escadense, 1876
- Aqui pra Nós, 1877
- A Igualdade, 1878
- Contra a Hipocrisia, 1879
- Estudos Alemães, 1880
- O Martelo, 1881
Parte dos jornais recifenses e escadenses a Fundação
Joaquim Nabuco microfilmou. Outra parte desapareceu dos acervos da Biblioteca e
do Arquivo e das coleções particulares, embora esteja anotada por Alfredo de
Carvalho e Luiz do Nascimento, nas suas obras sobre a imprensa periódica
pernambucana.
A bibliografia de e sobre Tobias Barreto, elaborada a partir
de levantamento preliminar feito pelo Centro de Documentação do Pensamento
Brasileiro, e com a colaboração de Jackson da Silva Lima, está assim
organizada:
Obras de Tobias Barreto:
a) sob as vistas do autor,
h) edições póstumas,
Obras sobre Tobias Barreto:
a) livros,
h) revistas,
c) obras de referência,
d) publicações especiais,
e) discursos,
f) outros,
g) artigos de jornais.
Recife/Aracaju, junho-novembro de 1989.
Texto extraído de OBRAS COMPLETAS DE TOBIAS BARRETO -
Edição Comemorativa - ESTUDOS DE DIREITO I - Organização e notas de Paulo
Mercadante e Antonio Paim - Direção Geral de Luiz Antonio Barreto com a
colaboração de Jackson da Silva Lima - EDITORA RECORD - GOVERNO DE SERGIPE -
Secretaria de Estado de Cultura e Meio Ambiente, 1991, p.11-15.
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