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José Cristian Góes

Jornalista profissional, servidor federal INSS, especialista em Gestão Pública (FGV/Esaf) e Gestão de Crise (Gama Filho). Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju e presidente do Sindicato dos Jornalistas.

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14/01/2014 - 08:00
A inércia como arte na política em Sergipe
Muda-se o Mateus, mas o reisado é o mesmo.

Há uma sensação coletiva no Brasil de que o ano só começa depois do Carnaval. Não é bem assim, principalmente para o capital e para os trabalhadores. O tempo é um fenômeno absoluto, mas a sua concepção é construída e relativizada socialmente. Depende dos mais variados interesses. Não é por outra razão a existência de calendários e as marcações de tempo na política, na economia, na saúde, na educação, na família.

Por enquanto, busco analisar resumidamente um recorte de tempo e de espaço: o da política em Sergipe na delimitação de 2014. Antes, porém, lembro-me de um dispositivo que está atrelado ao tempo: a dinâmica. Como cantava Cazuza, “o tempo não para”. De fato, nós somos a prova desse movimento, dessa dinâmica. Pegamos carona no tempo para nascer, crescer e morrer. A dinâmica no tempo nos transforma e ninguém está isento dos seus (de)efeitos ao longo da jornada.

No entanto, na política de Sergipe, além do tempo há uma propriedade física que foi incorporada como determinante: a inércia. Formulada por Galileu e confirmada por Newton, esse fenômeno é visto em corpos parados, não submetidos a nenhuma força, ou em corpos em pleno movimento, que sofrem ação de forças tão perfeitamente iguais que resultam nulas. É um vai e vem constante, sem alteração de velocidade. Na prática, esse movimento não resulta em nada, não sai do lugar. Temos uma ilusão dinâmica, mas nada ocorre.

Assim é a política que domina Sergipe: do movimento parado ou do parado movimento: a inércia.

Desde 1945, Segunda República, até 2007, o Governo de Sergipe, símbolo máximo do poder local, foi ocupado por uma mesma elite política e econômica. Não ocorreu a mínima fissura. Herdeiros das capitanias hereditárias, ela se distribuía por partidos como PSD, UDN, Arena, PDS, PFL e PSDB. Os nomes foram vários (Leite, Maciel, Carvalho, Batista, Franco, Filho, etc), mas a política – a forma de dominação - é a mesma. Muda-se o Mateus, mas o reisado é o mesmo.

Depois de 62 anos homogênea, ocorreu um sopro de esperança nesse quadro. Será que a inércia política teria fim? Marcelo Déda chega ao Governo de Sergipe pelo PT, derrotando um clássico representante da oligarquia vinda da Segunda República. E a promessa não seria outra: mudança. No entanto, seu governo não alterou em nada os esquemas de poder político espalhados e consolidados no Estado. A prática do mandonismo não se alterou. Ao contrário, manteve-se e se reforçou. A essência dos velhos esquemas de poder estava mais uma vez garantida.

Chegamos a 2014 e as perspectivas políticas reforçam ainda mais a inércia desse quadro no tempo e no espaço. A sensação é de impossibilidade de transformação dessa lógica de dominação. Todos aparentes candidatos ao Governo estão alinhados à velocidade constante de forças que não levam a lugar nenhum, a nada mudar, isto é, nenhum esquema de poder das elites estaria ameaçado, muito pelo contrário. Para a classe política dirigente, Sergipe precisa continuar exatamente assim: com povo feliz e ordeiro e que aceita como natural o saque, nepotismo, clientelismo, empreguismo, isto é, esquemas corruptos de favores e apadrinhamentos e de uso as escancaras dos “dinheiros públicos”.

Muitas vezes, a sensação é de que jamais experimentados a res publica.

Percebam que utilizei sempre a expressão “sensação”, que tem nela uma forte carga de individualidade. Em sendo assim, preciso dizer que também nutro a sensação de que nada é tão eterno assim. Mesmo que a política em Sergipe tenha se utilizado engenhosamente da inércia, há sempre a esperança de que ela mesma produza seu inverso. Talvez o tempo e o aprofundado do pior na política ainda não estejam dados para que as contradições – como forças vivas – estimulem as ações para o esgotamento desse sistema.

Retomo o primeiro parágrafo. Como o tempo tem sua relatividade construída socialmente, cabe àqueles que ainda resistem e acreditam na transformação para valer dessa estrutura política perversa “fazer a hora”.

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Comentários (4)
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Nivaldo Gois
Concordo (118)
15/01/2014 às 18:15
A inércia consiste na tendência natural que um corpo possui de resistir à atuação de forças que alterem o seu status quo. Apesar disso, mudanças são necessárias. Infelizmente, há muito mais discursos e atitudes oportunistas que movimentos favoráveis ao interesse público e à verdadeira democracia. Atualmente, temo pelo nosso Sergipe, que se encontra num beco sem saída, onde quem mais fala em mudança esconde a pretensão de regredi-lo à condição de propriedade privada de coronéis.
Paulo Lima
15/01/2014 às 07:36
ATENÇÃO DESO! TUBULAÇÃO ROMPIDA NA AV. Mª VASCONCELOS DE ANDRADE - CONJ. COSTA NOVA I, EM FRENTE À RUA 2, 237. O PROBLEMA EXISTE À MAIS OU MENOS 48HS E O ASFALTO JÁ ESTA CEDENDO. O PROBLEMA É CAUSADO POR CAMINHÕES DE CARGA QUE ABASTECE UM DEPÓSITO DE BEBIDAS E UM AÇOUGUE DA AVENIDA. O PISO NÃO FOI FEITO PARA ESSE TIPO DE TRANSITO. URGE UMA CORREÇÃO URGENTE DO FATO, CESSANDO O DESPERDÍCIO DE ÁGUA, QUE JÁ É ESCASSA.
Nivaldo Gois
15/01/2014 às 18:26
No comentário que fiz anteriormente, onde se lê "coronéis", leia-se: "NOVOS CACIQUES".
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