| A cega navalha da mídia |
| Algo de real está acontecendo na sociedade brasileira. Há um movimento lento, opaco e quase imperceptível, mas de constante avanço. Essa ação não tem nome, data de nascimento e |
29/05/2007 - 18:16 |
Algo de real está acontecendo na sociedade brasileira. Há um movimento lento, opaco e quase imperceptível, mas de constante avanço. Essa ação não tem nome, data de nascimento e muito menos se sabe aonde vai chegar. Existem apenas duas certezas: que a vida caminha para frente e que as estruturas apodrecidas nos poderes públicos e privados não passam mais completamente desapercebidas. A sociedade, através de setores populares, movimentos organizados, sindicatos de trabalhadores, conselhos, associações, acompanha, fiscaliza, denuncia. Coloca a boca no mundo. Não adianta a grande mídia tentar omitir, sufocar, distorcer. A mídia das fontes, seja impressa, eletrônica, seja como for, existe, é real e cresce em influência. Não depende da Globo, nem da Folha, nem da Veja. Pelo contrário, ela coloca em xeque os veículos tradicionais. O leitor, o telespectador, o ouvinte, o internauta não é mais um simples componente de massa de manobra. Ele tem voz, voz de resistência.
A mais recente ação que fez os que lutam por uma sociedade mais justa brilharem os olhos foi a operação Navalha. Presas 48 pessoas numa ação nacional envolvendo o Ministério Público e a Polícia Federal. Elas são acusadas de participarem de uma suposta organização criminosa, comandada pela construtora Gautama, que teria fraudado licitações para roubar os cofres públicos. O Estado Sergipe, que curiosamente tinha passado ileso em tantas outras operações desse estilo, mergulhou de cabeça no olho do furacão e dificilmente sairá desta história sem que algo tenha mudado. De cara, três figuras (o empresário João Alves Neto, o ex-deputado Ivan Paixão e o conselheiro do TC Flávio Conceição) mudam de páginas em alguns jornais. Deixaram as coluninhas sociais regadas a uísque e outros mimos luxuosos e pularam para as policiais. Ficaram ao lado de gente comum e que sempre teve espaço cativo por lá. Quem diria? Presos, algemados e levados para prestar depoimento em Brasília. Notícia nacional.
Todo este caso merece algumas reflexões, de tantas outras que se pode fazer. O envolvimento de Governos e autoridades de quase todas as instituições com empreiteiros não é novidade em Sergipe. Não só com empreiteiros, mas com empresários dos transportes, dos medicamentos, do lixo, do fornecedor de mão-de-obra terceirizada, de automóveis e de comunicação. Um pente, que não precisa ser fino, passado nessas relações não deixaria um fio só de cabelo. Não ficaria pedra sobre pedra. A verificação um pouquinho mais cuidadosa de documentos e escutas telefônicas nos últimos dez anos nas administrações públicas em Sergipe poderiam ter mudado a história política de Sergipe faz tempo. Mas onde estava o jornalismo, que a luz do interesse público, não apurou e não denunciou os esquemas dos poderes públicos e privados que saquearam os cofres do estado e de prefeituras nos últimos anos? Precisa responder? De quem são mesmo os nossos jornais, tv e rádios em Sergipe?
Longos anos sem poder apurar o que se enxerga na frente no nariz, tem produzido um tipo de profissional de jornalismo profundamente acrítico e que, antes de produzir ou receber qualquer pauta corriqueira, das coberturas mais simples as mais complexas, submete-a ao exame de sua razão já autocensurada. Em instantes, uma lista enorme de figuras públicas e privadas, físicas e jurídicas, surge como os nomes intocáveis para o jornalismo. Mas, de fora para dentro, a música tem feito estragos aqui. No caso da operação Navalha, os veículos de comunicação do País já davam os nomes dos envolvidos. A toda hora pipocavam gravações, nomes, mais nomes. Não tinha jeito de impedir. Não dava para tapar o sol com a peneira. Parte da imprensa local até que resistiu até a última hora, mas não teve jeito. A TV Sergipe, por exemplo, no jornal do meio dia (dia 17 de maio), sequer divulgou os nomes dos sergipanos presos. Albano Franco é amigo pessoal do conselheiro do TC. Houve “choro e ranger de dentes”. Mas como dizia o ex-governador João Alves Filho, “contra fatos não há argumentos”. O fato é de o empresário João Alves Neto, o ex-deputado Ivan Paixão e o conselheiro do TC Flávio Conceição foram presos, algemados. É o fato e como tal deve ser divulgado, sem qualquer pré-julgamento.
A cega navalha da imprensa local teve que cortar. Neste sentido, os veículos, quase todos, embarcaram na correta divulgação dos fatos. Fizeram um bom trabalho. Mas um fato chama atenção. O respeito ao princípio da presunção de inocência utilizado nas reportagens. Todos se valeram das certeiras expressões como “suposto”, “teria”, “segundo acusa”. Era interessante que este mesmo zelo foi utilizado contra todos, principalmente contra pobres e pretos que são apresentados à imprensa como criminosos apenas com um “ouvir dizer”, sem escuta telefônica nem fotos. Pedir as contas em ler títulos em jornais do tipo “Monstro da Terra Dura”, em que se tratava um “suspeito” de um crime. Pedir as contas de ouvir em programas de rádio e tv colegas de profissão humilhando, xingando, espezinhando “suspeitos de crime” apresentados pelo Estado, além de incitar que o preso fosse usado sexualmente na prisão e até linchado. Para estes a “cana é dura”. São denunciados, julgados, condenados e muitos executados. Quando os bandidos são de colarinho branco, aplica a presunção de inocência. Diz-se: “precisamos ter clama, apurar direito, não é bem assim, não se pode expor a pessoa, etc, etc, etc”. Esta boa regra deveria servir para todos.
Impossível não registrar a atuação do Correio de Sergipe em toda operação Navalha, que ainda não acabou. Contrariando a maioria dos profissionais de lá, veja o que o jornal fez, para muitos, nada de novidade. A operação Navalha é deflagrada na manhã do dia 17 de maio. Presos em Sergipe o empresário João Alves Neto, diretor-presidente do jornal e o conselheiro do TC Flávio Conceição. É o fato do dia em Sergipe, no Brasil, em função de outras prisões em vários estados. Manchete do Correio de Sergipe, edição do dia seguinte, 18: “Déda mantém reajuste e não acredita em ´greve eterna´. Em todo jornal só uma pequeníssima matéria, de rodapé, na página A-6 (geral). Dizia: “A Polícia Federal prendeu ontem em Aracaju duas pessoas...”. Pronto. Nada mais. Quem são? Nada. Mais adiante diz a matéria: “O advogado Emanoel Cacho, que acompanha um dos investigados...”Só. Nada mais. Que investigado? O principal colunista do jornal fala do absurdo da polícia federal, sem falar o nome de um preso, o João Neto. Escreve ele que “quem não conhece em Sergipe Flávio Conceição. É carioca, torce pelo Botafogo e é uma figura que o estado todo gosta”. Quem?
Mas não é só isso. Além de omitir uma informação pública ao público, um fato concreto, o Correio de Sergipe chega na edição do dia 23 de maio, cinco dias depois, e estampa na manchete principal e em letras garrafais a operação Navalha, mas veja o enfoque: “Operação Navalha faz a primeira baixa no Governo Lula”. Isso mesmo. A matéria era recortada da Folhapress e que só entrou no jornal porque afetada o governo de oposição ao jornal. Dia 25 de maio, sexta-feira, o jornal Correio de Sergipe volta a destacar em manchete principal o caso da operação Navalha. Veja o título do periódico: “Lula ouve críticas e admite excesso da Polícia Federal”. E nada de dizer quem foi preso e o porquê. Não é julgar, condenar ninguém, mas reconhecer a existência do fato, doa a quem doer. Onde Sergipe está? A título de curiosidade: o slogan do jornal é “quem lê sabe mais”. Sabem o quê? Como ficam seus leitores? E o código do consumidor? O jornal tem e pode assumir qualquer postura político-partidária, ser parcial mesmo, mas isso precisa estar claro e não tentar induzir a ilusão da imparcialidade.
Como a Navalha cortou mais gente do que se esperava, e poderá cortar ainda mais – tomara que Zuleido abra a boca -, os setores mais conservadores da sociedade, entre eles os grandes conglomerados da mídia, dão início a uma campanha para amordaçar a Polícia Federal e Ministério Público. A história é combater o excessos. Quem já se viu autoridades flagradas em grampos telefônicos legais acertando propina. É uma exposição absurda, dizem eles. Polícia é para pobre. Depois de mais de 500 anos de excessos, discriminação, preconceito, omissão, distorção, mentira contra o povo pobre, negro, índio, sem terra, sem educação, saúde, trabalho, agora vem a mídia se achando defensora dos direitos individuais. Individuais de quem, cara pálida?
Um dos sentimentos que fica nessa operação Navalha, pelo menos para Sergipe, é de que ela pode ter chegado tarde demais. Se fosse um pouco antes, uns dez anos atrás, quem sabe se não teríamos um estado um pouco mais justo, evitando-se que o grosso das verbas públicas não fosse parar nos apartamentos luxuosos e nas mansões, nos carros importados, nas fazendas a perder de vista, em veículos de comunicação, nas poupanças de dólares e jóias, nos gastos eleitorais, nas contas e mais contas de familiares e aderentes. Não se admite um estado pequeno, sem maiores problemas climáticos, profundamente rico, (mais de R$ 6 bilhões é o orçamento anual do Governo do Estado) mas profundamente desigual, com uma camada gigantesca de pobreza, gente a morrer de fome. Sem dúvida, a corrupção em Sergipe, suas interelações familiares e seu enraizamento nos poderes, é determinante para o atraso político, educacional, cultural e social do Estado. Por isso, ela precisa ser debelada, pelo menos combatida, doa a quem doer.
Nunca é tarde para começar.
cristiangoes@infonet.com.br
|