Webmail

Luíz Antônio Barreto

Jornalista, historiador e diretor do Instituto Tobias Barreto e ex-secretário de Estado da Cultura. Escreve para o Portal Infonet todos os sábados.

Compartilhar: 
26/08/2011 - 08:43
O Estigma de Cam e a Carta de Inácio de Tolosa
e a Carta de Inácio de Tolosa

A Carta do Provincial da Companhia de Jesus no Brasil – Inácio de Tolosa – datada da Bahia em 7 de setembro de 1575, continua sendo um documento essencial para a compreensão do capítulo da Catequese jesuítica, que precedeu a Conquista das terras de Sergipe por Cristóvão de Barros. Transcrita num Códice de cartas, o texto do padre Tolosa é quase desconhecido: Felisbelo Freire, no seu clássico História de Sergipe, de 1891, traduz um trecho pequeno, ainda assim com erros, e Jackson da Silva Lima,, no Os Estudos Antropológicos, Etnográficos e Folclóricos em Sergipe, de 1984, também fez tradução literal de um texto, tratando de um diálogo entre um Principal dos indígenas e possivelmente o padre Gaspar Lourenço, que conduzia a Catequese.

Inácio de Tolosa, espanhol da Segóvia, nascido em 1533, morreu no Brasil, no Colégio da Bahia, em 1611, portanto neste ano de 2011 o religioso completa 400 anos de morto, o que reforçaria o interesse no texto, para reforçar a compreensão dos fatos, nos primórdios da civilização sergipana. A Carta de Tolosa trata de outras ações dos seus padres, não apenas da Catequese em Sergipe, e por isto o Barão de Studart retirou e traduziu trecho sobre o Ceará, inserido no livro Fontes para o Estudo da História do Brasil, Especialmente do Ceará. Foi Lino de Assunção, Diretor da Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, quem localizou o documento jesuítico, mandando cópia para Capistrano de Abreu e outros amigos brasileiros.  No entanto, a Carta continua inédita, mesmo que seja um exemplar raríssimo, documentando o encontro histórico dos catequistas, a serviço das Coroas de Portugal e de Espanha, com os indígenas que habitavam as praias e matas de Sergipe, entre os rios Real e São Francisco.

Jackson da Silva Lima transcreve um trecho com o seguinte teor:

“Um Principal (Chefe) contou a ele padre uma história que eles têm por certa,

Para explicar-lhe sua origem. Dizendo que, em tempo passado, acontecera, que os seus por não querer ser bons contra eles se levantou um Principal, e lhes fez guerra; e depois, com muita ânsia, pegou um dardo e deu com ele em terra, e fez que se abrissem as fontes, e se afogassem todos, e que ele fez uma casa de folhas muito bem tampada e aí se defendeu da água; e depois de todos mortos e a água passada; partiu, e assim começaram as gerações, que é coisa muito longa de contar. O que nisto disse acrescentando que, por isto, estão desnudos, e não têm nada, porque tudo se perdeu com a água. Ouvindo o padre isto, e compreendendo que tinham alguma notícia do Dilúvio, mas corrupta, lhe explicou a verdade declarando-lhe a história do Gênesis até chegar como Noé fez sua maldição a Cam, porque fez burla dele, dizendo que eles descendiam deste Cam, e por isto andavam tão apartados das coisas de Deus. Folgaram todos muito, ouvindo isto, e ficaram com desejos de aprender as coisas de Deus.”

Este encontro ancestral, que faz da Carta de Tolosa uma espécie de “Certidão de Nascimento” de Sergipe e de sua população autóctone, contrariava, em certa medida, a Bula do Papa Paulo III, editada por influência dos dominicanos, em 1537, pela qual eram reconhecidos os indígenas do Novo Mundo, como “pertencentes à espécie humana e dispunham de alma como os seus colonizadores, devendo ser salvos...” Corria na Europa, à época dos descobrimentos, que as raças humanas descendiam do dilúvio e dos três filhos de Noé: Sem, Jafé e Cam, espalhados pela terra repovoada. O estigma de Cam marcava esse primeiro contato, como uma maldição aos indígenas sergipanos, descendentes, segundo os catequistas, do filho proscrito de Noé.

A Carta de Inácio de Tolosa, portanto, é documento único, primacial, sobre as relações catequéticas e conquistadoras, precisando ser traduzida e editada, para servir de fonte múltipla de estudos. Os 4 séculos da morte de seu autor deveria servir de estímulo a que fosse feita a edição, em português, devidamente anotada. Outros textos,  que também estão na base dos estudos sergipanos, carecem de edição, como os dois livros do padre Luiz Vicencio Mamiani, escritos na Aldeia Kiriri de Tomar do Geru – Catecismo da Doutrina Cristã na Língua Brasílica da Nação Kiriri e Arte da Gramática da Língua Brasílica da Nação Kiriri – editados em Lisboa em 1698 e 1699, além de outros.

VEJA TODAS PUBLICAÇÕES DO BLOG


Compartilhar: 
Comentários (0)
Os comentários são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam o pensamento deste portal.
Atendimento ao Cliente 24 horas: (79) 2106-8000
Política de privacidade
Expediente
Anuncie no Portal
Rua Monsenhor Silveira 276, Bairro São José
Aracaju-SE, CEP 49015-030
Todos os direitos reservados