Webmail

Luíz Antônio Barreto

Jornalista, historiador e diretor do Instituto Tobias Barreto e ex-secretário de Estado da Cultura. Escreve para o Portal Infonet todos os sábados.

Compartilhar: 
09/12/2004 - 11:16
JOÃO CARLOS PAES MENDONÇA
Depois de expor, em muitos auditórios as suas idéias e exercer, com radicalidade, a crítica, Mário Hélio aceitou a difícil tarefa de ouvir, anotar, conferir e interpretar dados referentes a um homem múltiplo: o sergipano João Carlos Paes Mendonça...

Pernambuco é terra de grandes críticos, escritores que interpretam os fatos, colocando-os ao alcance do leitor comum. Fausto Cunha, nascido em Goiana, vivendo e morrendo no Rio de Janeiro, foi o maior dos críticos pernambucanos, seguido por muitos outros, como Leônidas Câmara, que trocou a labuta do jornal pela burocracia, Nelson Saldanha, que além de crítico é poeta e é filósofo, Paulo Gustavo, um ourives da palavra. Mário Hélio é dessa mesma linhagem e, ainda jovem, já conta com o reconhecimento público, pela forma nova de enxergar os fenômenos da cultura e localizá-los no contexto da vida social.

 

Depois de expor, em muitos auditórios as suas idéias e exercer, com radicalidade, a crítica, Mário Hélio aceitou a difícil tarefa de ouvir, anotar, conferir e interpretar dados referentes a um homem múltiplo, construindo um perfil biográfico sincero - tendo como motes a vida, as idéias e os negócios - do sergipano João Carlos Paes Mendonça, um vitorioso empresário que nasceu na Serra do Machado, povoado de Ribeirópolis, e inicialmente ao lado do seu pai, Pedro Paes Mendonça, ganhou o mundo para se tornar, sem favor, um dos importantes empresários do Brasil.

 

A família Paes Mendonça tem uma história de vitórias. Euclides Paes Mendonça, comerciante como os irmãos, mudou de ramo e na política encontrou morte trágica, trucidado ao lado do filho, ambos deputados, na praça de Itabaiana. Naquele dia 8 de agosto de 1963, Sergipe perdia o deputado federal e ex prefeito de Itabaiana Euclides Paes Mendonça e seu filho, o deputado estadual Antonio Paes Mendonça. Mamede Paes Mendonça teve casa de comércio em Aracaju, por alguns anos, antes de mudar-se para Salvador e se tornar no líder do grupo Paes Mendonça, com sua rede de super mercados. Pedro Paes Mendonça, comerciante desde a pequena bodega de Serra do Machado, estabelecido na rua de Santa Rosa, nas cercanias do Mercado Antonio Franco, aventurou-se para Pernambuco e no Recife montou o Grupo Bompreço, marca que encheu o Nordeste, incluindo Aracaju, de lojas de super mercado.

 

João Carlos Paes Mendonça foi com o pai para o Recife e o substituiu no seu desaparecimento. Viveu, praticamente, para o comércio, para os empreendimentos, para fortalecer e tornar o Bompreço uma referência no varejo brasileiro, ajudando a projetar a capacidade empresarial dos sergipanos, não apenas os seus próximos, da mesma família, mas outros igualmente vencedores, como Oviêdo Teixeira, que atuou em vários segmentos produtivos e, os irmãos, Gentil Barbosa e Noel Barbosa, do Grupo G. Barbosa.

 

É, portanto, a trajetória de João Carlos Paes Mendonça o objeto tomado por Mário Hélio, para seu trabalho de grande fôlego e responsabilidade intelectual. O autor lança seus olhos sobre paisagens, personagens, fatos da história, desdobrando-os, lentamente, nos cenários cronológicos que propõe: Batismo de Fogo (1938-1959), O Rio Ganha o Mar (1959-1968), Os Vôos Mais Altos (1968-1981), Orgulho de Ser (1981-2004). A realidade, aninhada nas expressões mais belas da linguagem, faz o lastro do belo e bem ilustrado livro. Mário Hélio, afeito as armaduras do crítico, cascavilha o andamento da história, enquanto vai colocando o seuS personagens nas dobras dos fatos, bordando-os com uma revisão cronológica, que seleciona e vitrifica, na dinâmica das suas influências para o contexto nacional e mundial do tempo.

 

O livro se completa com uma parte didática, intitulada de João Carlos Paes Mendonça de A a Z, que tanto esclarece, quanto dá voz ao personagem, valorizando o sentido da biografia. As biografias são, na atualidade, os maiores desafios, porque ancoram em figuras destacadas de homens e mulheres, cenários inteiros nos quais os fatos ditam a história. Ciente de que algumas fontes primárias não merecem crédito, os biógrafos se valem da técnica da história oral para compor os traços marcantes que atestam os itinerários de vida das pessoas. Longe de ser ou de representar um discurso laudatório e de pura louvação, as biografias vão constituindo um corpus de fundamentação da história, conversível em fonte de pesquisa, pela credibilidade que adquirem no confronto das informações.

 

Mário Hélio, que tem na sua cidadania pernambucana um contato cotidiano com seu personagem, homem de negócios e de mídia, sabia de logo que teria de revisitar a terra e buscar a compreensão dos fatos sergipanos de quase todo o século XX. Serra do Machado é uma representação perfeita das comunidades periféricas do interior sergipano, que não seguiu com sua vocação para o comércio, como ocorreu com sua vizinha Saco do Ribeiro, hoje Ribeirópolis, em cuja feira semanal todos, ou quase todos, passaram.

 

As relações comerciais das feiras, especialmente entre Itabaiana, Ribeirópolis, Moita Bonita, entre os quais está a Serra do Machado, precisam ser estudadas. Há muito a ser investigado, e descoberto, para a compreensão dos fenômenos empresariais que têm dado a Sergipe expoentes de uma economia que não tem a pauta da ciência, e nem das técnicas, que os livros e as escolas difundem. Os irmãos Paes Mendonça, Oviêdo Teixeira, Gentil Barbosa, Noel Barbosa, João Carlos Paes Mendonça e muitos outros construíram exemplos extraordinários, que não cabem nos manuais, e nem sempre estão colocados para o resto do Estado e da sociedade sergipana. Há mesmo, com as lições de tais figuras, um orgulho de ser sergipano, na paráfrase do orgulho de ser nordestino, que embalou a auto estima de Pernambuco falando para o mundo.

 

Mário Hélio escreveu um grande livro. De um lado fixou, para os tempos vindouros, uma biografia sincera de um homem de negócios, cheio de idéias, de outro exercitou, com leveza e categoria, uma escritura notável, que eleva sua bibliografia de escritor e de crítico. João Carlos Paes Mendonça – vida, idéias e negócios (Recife: Editora Ática, 2004).

 

Permitida a reprodução desde que citada a fonte "Pesquise - Pesquisa de Sergipe / InfoNet". Contatos, dúvidas ou sugestões de temas: institutotobiasbarreto@infonet.com.br.

VEJA TODAS PUBLICAÇÕES DO BLOG


Compartilhar: 
Comentários (0)
Os comentários são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam o pensamento deste portal.
Atendimento ao Cliente 24 horas: (79) 2106-8000
Política de privacidade
Expediente
Anuncie no Portal
Rua Monsenhor Silveira 276, Bairro São José
Aracaju-SE, CEP 49015-030
Todos os direitos reservados