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Luíz Antônio Barreto

Jornalista, historiador e diretor do Instituto Tobias Barreto e ex-secretário de Estado da Cultura. Escreve para o Portal Infonet todos os sábados.

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09/05/2005 - 10:51
ESTRANGEIROS EM ARACAJU (IV)
A Maçonaria sempre teve suas antenas ligadas na marcha da história, apoiando ou condenando os movimentos sociais. O Integralismo dos anos de 1930 foi veementemente proscrito na Loja Cotinguiba, com a suspensão dos direitos maçônicos de brasileiros e estr

A Maçonaria sempre teve suas antenas ligadas na marcha da história, apoiando ou condenando os movimentos sociais. O Integralismo dos anos de 1930 foi veementemente proscrito na Loja Cotinguiba, com a suspensão dos direitos maçônicos de brasileiros e estrangeiros que aderissem à causa liderada por Plínio Salgado. Entre os brasileiros Rosalvo Rosa Queiroz, nascido em Marum em 12 de agosto de 1890, falecido em Aracaju, em 1º de setembro de 1971, engenheiro têxtil, casado, maçom desde 9 de agosto de 1920, e dos estrangeiros Mariano Salmeron Navarro, espanhol de Cieza, nascido em 5 de agosto de 1896, filho de Mariano Salmeron e Maria Dolores Navarro, casado com Guiomar de Barros Mesquita, falecido em Aracaju em 20 de abril de 1952, tiveram em suas Fichas maçônicas o registro das observações condenatórias ao Integralismo. Mariano Salmeron deu satisfação a Maçonaria, entregando para arquivo cópia da carta que fez ao Núcleo Integralista de Aracaju, renunciando ao movimento.

 

Era um período que exigia cautelas dos estrangeiros. Nicola Mandarino não foi o único como suspeito de colaboração com as forças do niponazifascismo. Outros sofreram constrangimentos, patrulhamentos e enfrentaram os apupos da população. Muitos, no entanto, seguiram com suas atividades na cidade, ou procuraram o interior do Estado, onde pudessem tocar seus negócios. Morreu em Aracaju, por exemplo, em 28 de maio de 1938, José Thomás Sanz, espanhol nascido em Zaragoza, em 18 de agosto de 1888. Era casado, iniciado na Maçonaria desde 19 de junho de 1930, e tinha como profissão a música. Foi professor, tinha seu curso, colaborando para a elevação cultural da capital sergipana.

 

José Tomaz Sanz
Aracaju sempre teve os ouvidos atentos para a música das bandas do 28 BC, onde surgiram grandes intérpretes, como o saxofonista Luiz Americano, da Polícia Militar, com compositores de dobrados, do Corpo de Bombeiros, para as orquestras, como a do maestro Pinduca, e a Luna, de Euler Bessa, para os cursos de Helena Abud, de teoria e piano, de Waldir Morais de Almeida Mesquita, de teoria, solfejo e piano, com as denominações de Menino Jesus e de Carlos Gomes, dentre outros. José Tomáz Sanz vivei nesse ambiente musical, como professor de música, ajudando na formação de um gosto artístico que produziu seus efeitos nas décadas seguintes, com a criação da Sociedade de Cultura Artística de Sergipe – SCAS, com a Escola, hoje Conservatório de Música, que contou com Genaro Plech e com Leozírio Guimarães, dentre outros maestros e mestres da música, e mais recentemente com a SOFISE, dirigida pela professora Maria Olga Andrade e com as tentativas oficiais, do Estado, de dotar Sergipe de uma Orquestra Sinfônica.

 

José Tomáz Sanz era uma exceção, pois a maioria dos estrangeiros estava distribuída no comércio de Aracaju. Salomão Bonomô, nascido em Smyrna, na Turquia asiática, em 16 de setembro de 1886, iniciou-se na Maçonaria em 19 de setembro de 1931. Era comerciante, tinha sua Loja Bonomô, na rua de João Pessoa, 94, depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde morreu em 24 de abril de 1947. Saul Kaminsky, Elias e Marcos Roitman, Maurício Lerner, todos romenos, dominavam o ramo de móveis, com fabricação própria, ou vendendo produtos do Paraná e de Santa Catarina, considerados os melhores do Brasil. Saul Kaminsky nasceu em Bessarábia, Romênia, em 16 de outubro de 1905. Casado com Lúcia Kaminsky, pai de Joel Kaminsky, nascido em Aracaju em 2 de abril de 1930, ingressou na Loja Cotinguiba em 6 de outubro de 1934.

 

Elias Roitman
Marcos Roitman nasceu na mesma Bessarábia, na Romênia, em 25 de outubro de 1898, iniciando-se na Maçonaria já casado com Paulina Roitman, em 26 de setembro de 1940. Elias Roiteman, procedente do mesmo lugar da Romênia, nascido em 8 de dezembro de 1905, entrou para a Loja Cotinguiba em 21 de outubro de 1939. Marcos Roitman era proprietário de A Mobiliadora, fábrica de móveis situada na rua de João Pessoa, 29, enquanto Elias Roiteman sucedia Isaac Udermann, a frente da Casa Colombo, nos endereços novos de rua de João Pessoa,73 e 199 (antes era na mesma rua, no número 81). Era uma fábrica movida a eletricidade, como anunciava. Maurício Lerner nasceu na Romênia em 28 de agosto de 1913, era solteiro quando iniciou-se entre os maçons, em 13 de janeiro de 1940. Comerciante, era sócio de José Chapermann na Mobiliaria Brasil, na rua Inácio Barbosa, 156, que representava em Sergipe os colchões Probel.

 

Outro romeno, comerciante de móveis em Aracaju, foi Maurício Stern, filho de Abraão Elias e Clara Stern, nascido em 17 de abril de 1896. Declarou-se de religião israelita, quando foi entrou para a Maçonaria, em 13 de setembro de 1941, época que os judeus sofriam grande perseguição dos niponazifascistas. Com Isaac Chapermann abriu a loja Mobiliaria Chic, para expor e vender móveis que fabricava, à eletricidade, à rua de João Pessoa, 119/121. A Mobiliaria Chic era anunciada como “a maior e a melhor do Estado.” Maurício Stein morreu no Rio de Janeiro (Jacarepaguá), em 2 de fevereiro de 1973. No ramo de móveis, outros comerciantes estrangeiros pontificaram, alguns maçons, outros não como é o caso de Maurício Steimann, proprietário da Mobiliaria Sergipe, sob direção técnica de Samuel Eidelman, estabelecida na rua João Pessoa, 491 (atual José do Prado Franco).

 

Aracaju não era a única cidade nordestina que abrigava estrangeiros, mas certamente chamava a atenção o grande número desses profissionais e comerciantes, aqui residentes. Salim Cabús, por exemplo, que fabricava e vendia gravatas na sua loja da rua de João Pessoa. Outros, ao que tudo indica da mesma família – Jamil Cabús em Salvador, A Cabús & filhos em Maceió, Salvador Cabús no Recife – comercializavam miudezas e gravatas. Cappell, que tinha uma fábrica de vinagre e vinho na Travessa Municipal, deveria ter parentesco com Benjamim Cappell, que na Bahia fabricava chapéu de sol, vendia chapéus e bengalas. Entre Salvador, ao sul, e Recife, ao norte, Aracaju era local preferido para estrangeiros que corriam o mundo em busca de trabalho, riqueza e paz. (Continua)

 

Permitida a reprodução desde que citada a fonte "Pesquise - Pesquisa de Sergipe / InfoNet". Contatos, dúvidas ou sugestões de temas: institutotobiasbarreto@infonet.com.br.
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