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Luíz Antônio Barreto

Jornalista, historiador e diretor do Instituto Tobias Barreto e ex-secretário de Estado da Cultura. Escreve para o Portal Infonet todos os sábados.

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14/05/2004 - 18:48
A DANÇA DE SÃO GONÇALO
O folclore sergipano é rico e variado em suas manifestações: danças, folguedos, autos, literatura oral, música, jogos e brincadeiras, e outras múltiplas formas de expressão. Em 1977, a então Campanha...
O folclore sergipano é rico e variado em suas manifestações: danças, folguedos, autos, literatura oral, música, jogos e brincadeiras, e outras múltiplas formas de expressão. Em 1977, a então Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro realizou pesquisas para elaboração do Atlas Folclórico do Brasil e o Estado de Sergipe foi a grande surpresa, por contar, naquela ocasião, com 220 grupos populares em atividade. Um resultado que fez de Sergipe, em 1977, a maior reserva de folclore de todo o País. A listagem dos grupos indicava que a Zabumba, também conhecida como caceteira e Esquenta Mulher, predominava com 44 grupos, espalhados pelo interior sergipano. Os demais eram os Reisados, Guerreiros, Cheganças, Cacumbis, Pastoris, que são, dentre outros, grupos ligados ao ciclo do Natal, Batalhões, Pisa Pólvora, Batucadas, Sambas de Roda, de Aboio, de Parelha, do ciclo junino, Taieiras, Maracatus, São Gonçalo, e ainda outros, rarefeitos pelo interior, como o Parafuso, de Lagarto, os Cangaceiros, de Propriá e de Lagarto, e outros mais. O folclore vai além dos grupos, incorporando hábitos, costumes, crenças, superstições, artesania, parlendas, adivinhas, provérbios e outras formas sentenciais, estórias, romances, cantigas, um universo amplo, lúdico, que além de ser uma memória social e um bem, intangível, imaterial, que concorre para a formação da identidade cultural. Tanto mais variado, como o sergipano, mais o folclore expõe a diversidade, que é características das sociedades e culturas mestiças, como é o caso do Brasil, notadamente a parte velha, que é a região nordestina, com suas etnias. Laranjeiras e Japaratuba mantém festas populares, agregadas ao calendário religioso. As duas cidades sergipanas festejam o dia de Santos Reis, encerrando as festividades natalinas. Laranjeiras incorpora, na festa dos Santos Reis, São Benedito, com missa especial, na qual o sacerdote preside a cerimônia de coroação da Rainha da Taieira. Em Japaratuba, depois de assistirem a missa na primeira fila da igreja, reis e rainhas do Cacumbi e do Maracatu, com seus séquitos, são coroados pelo padre e pelos convidados, no palanque da festa. A cerimonia de coroação de reis dos grupos folclóricos, negros, é das mais antigas manifestações da cultura popular, e foi testemunhada, no Recife, em 10 de setembro de 1666, na festa de Nossa Senhora da Vitória, por Souchon de Rennefot, que estava na Esquadra Francesa, aportada na capital pernambucana. A descrição corresponde, ainda hoje, ao costume repetido em Japaratuba, na festa de Santos Reis. Por muito tempo houve coroação de reis e rainhas negros na festa de Nossa Senhora do Rosário, em outubro. Mudou o calendário, mas o evento continua vivo, marcando o folclore sergipano. Dentro e fora dos ciclos de festa, os grupos folclóricos sobrevivem com seus folguedos e representações e com suas danças. A dança de São Gonçalo é um bom exemplo. Há registros velhos da ocorrência da dança em Lagarto, em Simão Dias, em Pinhão, em Tobias Barreto, em São Domingos, em Carira, como atestam as obras de Severiano Cardoso (especialmente Rimas Sertanejas, pelo seu caráter pioneiro,1896), Carvalho Déda (1967), Olímpio Rabelo (1974), Terezinha Oliva (1975), Beatriz Góes (1976), dentre outros, como bibliografa Jackson da Silva Lima no seu utilíssimo Os Estudos Antropológicos, Etnográficos e Folclóricos de Sergipe (Aracaju: Governo do Estado/SUCA, 1984). A dança de São Gonçalo foi, recentemente, objeto de pesquisa da professora Ana Angélica Freitas Gois, no projeto de pós – graduação em educação física, na Universidade Metodista de Piracicaba, em São Paulo. Mais precisamente a dança de São Gonçalo em São Cristóvão, a corporeidade no folclore sergipano. Trabalhando com pesquisadores do folclore sergipano, como Aglaé Fontes e Luiz Antonio Barreto, com mestres e com brincantes da dança, Ana Angélica Freitas Góis põe em destaque o acervo popular ainda existente em Sergipe, examinando as potencialidades de outros usos, fora do circuito das festas. A educação física tem buscado nas danças folclóricas ritmos e movimentos, que ajudam na formação de corpos de bailes, universitários e profissionais, que reinventam passos e evoluções, dando aos corpos um valor artístico e cultural agregado, e que didaticamente renovam a relação entre alunos e professores. A própria Ana Angélica Freitas Góis explicita, em suas conclusões, o sentido do seu trabalho: “... Tratando do folclore sergipano, através da Dança de São Gonçalo em São Cristovão, vislumbro a possibilidade de essa manifestação de crenças, fé e histórias adentrar aos estudos da corporeidade, da Educação Física nas escolas e nas suas diversas e ricas relações. “E confiante diz: “Tenho a convicção que há muito por desvelar no universo da corporeidade nesta pesquisa, considerando de extrema importância a valorização do folclore sergipano, das danças presentes nesse universo tão simples e tão rico, em que a comunicação com áreas de conhecimento, como a Educação Física, pode apresentar discussões e principalmente ações que contextualizem histórias contadas e recontadas ao longo de tantas gerações pelos diversos povos. Povos que seguirão nos mais distintos caminhos, despertando novos olhares para histórias que serão vividas, sentidas e escritas pelo próprio povo.” Belo trabalho, rigorosamente científico, feito com zelo e com amor por uma pessoa que está, de há muito, identificada com as coisas do povo sergipano. Agora é aguardar a publicação do texto, para valorizar ainda mais o folclore de Sergipe e a dança do São Gonçalo, em especial, tanto a de São Cristóvão, que foram focadas na pesquisa de Ana Angélica Freitas Góis, como a do genial grupo da Mussuca, em Laranjeiras, que dança “de ponta de pé/ e de calcanhar.” Com a pesquisa da Universidade de Piracibaca fica claro que o folclore sergipano é uma grande fonte, jorrando a alma do povo sergipano, como um manancial que tem gosto, sabor, som e movimento do cotidiano das gentes mais simples, subalternas, organizadas pelo tipo especial de conhecimento, unindo mestres e brincantes nas mesmas funções, cada um com seu saber, sua sensibilidade. Permitida a reprodução desde que citada a fonte "Pesquise - Pesquisa de Sergipe / InfoNet"
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