"Entre o Mito e a História: 50 anos do suicídio de Getúlio Vargas (1954-2004)", por Antônio Fernando de Araújo Sá*
Após os quarenta anos do Golpe de 1964, temos agora no mês de agosto o cinqüentenário do trágico suicídio de Getúlio Vargas.
19/08/2004  16:33

"(...) a História não é a comemoração do passado, mas uma forma de interpretar o presente".

José Mattoso (1998:22)

O ano de 2004 tem sido prodigioso em comemorações que fomentam o debate político no Brasil contemporâneo. Após os quarenta anos do Golpe de 1964, quando se realizaram vários eventos em que intelectuais e políticos buscavam exorcizar a herança autoritária da ditadura militar, temos agora no mês de agosto o cinqüentenário do trágico suicídio de Getúlio Vargas. Há relações inexoráveis entre as duas datas, na medida em que, em ambas, João Goulart, talvez o principal herdeiro político de Vargas, ocupava o centro do debate político. Ao mesmo tempo, o acontecimento traumático do seu suicídio conseguiu evitar o golpe que a direita armara para derrubá-lo do poder, adiando-o, pelo menos, até 1964.

Então, o legado de sua morte foi fundamental para a continuidade do processo democrático, contraditoriamente inaugurado, em 1945, por um golpe político contra o mesmo Vargas. Pressionado pelas mesmas forças políticas que golpearam a democracia em 1964, tendo à frente a cúpula militar, industriais e políticos da União Democrática Nacional (UDN), Getúlio, ao desfechar um gesto de tamanha dramaticidade, acabou por derrotá-los momentaneamente, consolidando, ao nível simbólico, o mito de Vargas no imaginário nacional.

Construído no período do Estado Novo (1937-1945), em torno do Departamento de Imprensa e Propagando (DIP), o processo de mitificação de Vargas como a "voz da nação", o "pai dos pobres", o "amigo das crianças" etc. tem encontrado, em diversos momentos históricos, ressonâncias na produção cultural contemporânea, seja na cultura popular, através da literatura de cordel e de enredos nas Escolas de Samba do Rio de Janeiro, seja cultura erudita, como é o caso da peça de teatro Vargas de Dias Gomes e Ferreira Gullar, ou ainda na cultura de massa, com o filme Getúlio Vargas de Ana Carolina.

Transformando sua morte num ato político, Vargas, em sua carta-testamento, balizaria ideologicamente o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ao defender a inserção das massas populares na política, a luta contra a desnacionalização da economia e a busca por um projeto nacional de desenvolvimento. Neste sentido, assim resume Tancredo Neves a existência deste que é talvez o mais destacado político da história do Brasil contemporâneo:

"Ele teve a preocupação de fortalecer a integração nacional. É uma constante, um pensamento constante na obra de Vargas. Segundo, a preocupação em aprimorar as instituições políticas; terceiro, a preocupação com o desenvolvimento econômico, e quarto, de maneira absorvente, o grande impulso que ele deu à política social no Brasil, à emancipação social do trabalhador brasileiro" (LIMA & RAMOS, 1986: 66).

Do ponto de vista político, nunca se viu na história do Brasil uma manifestação popular igual de dor e revolta pela morte de um político como a de Getúlio Vargas. A repercussão de seu suicídio nos meios populares foi intensa nas principais cidades do país, como São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Teresina, Natal e Fortaleza. Também em Sergipe, principalmente em Aracaju, as manifestações representaram verdadeiros motins populares contra os políticos vinculados à União Democrática Nacional (UDN).

Rosemary Santos descreve, com acuidade, os momentos de suspense e apreensão à espera do desfecho da crise de agosto de 1954 em Sergipe. Da noite do dia 23 para o dia 24 de agosto, vemos a passagem da alegria pela suposta vitória política da UDN com a renúncia de Vargas para o medo e a preocupação com a revolta popular desencadeada pelo seu suicídio nas ruas de Aracaju e Estância. O comércio fechou sob a pressão da multidão de operários e estudantes. Mesmo aqueles que trabalhavam em casa, como é o caso de costureiras, foram obrigados ao luto. Na manhã de 24 de agosto de 1954, o PTB de Sergipe organizou uma passeata que percorreu os bairros populares de Aracaju, culminando com um comício na praça Fausto Cardoso. Ali a fúria popular contra os adversários políticos de Vargas ocasionou o linchamento de Lídio Antônio da Paixão, candidato a vereador pelo PSP, após seu discurso em que defendeu Leandro Maciel, presidente da UDN em Sergipe.

O ato impensado e trágico da multidão fez com que o PTB adiasse a concentração marcada para o dia 25 de agosto à tarde no bairro Siqueira Campos. Entretanto, espontaneamente, a multidão exaltada saiu às ruas, depredando as seções eleitorais da UDN, rádio Liberdade de Sergipe e o jornal Correio de Aracaju. A multidão só foi contida com a intervenção política das lideranças petebistas, combinada com a ação da polícia e do Exército. Embora os motins tenham acabado no dia 25 de agosto, inúmeras homenagens a Vargas estenderam-se até o trigésimo dia de seu falecimento.

A identificação do líder com as massas e o intuito da construção da imagem do suicídio heróico tornaram compreensíveis as reações públicas de dor, revolta e, às vezes, de histerismo coletivo. Envolto no clima da Guerra Fria, não podemos esquecer ainda da repressão policial desencadeada contra os comunistas por supor que eles insuflaram as massas, como foi noticiado no jornal A Cruzada, de Aracaju.

Personalidade complexa e, por vezes contraditória, Vargas parece um fantasma que ronda, nas últimas cinco décadas, o debate político contemporâneo no Brasil. Curiosamente, foram as reformas neoliberais levadas a cabo pelo governo Fernando Henrique Cardoso, em que se propunham o fim da Era Vargas, que guindaram para o centro do debate político o legado do nacional-estatismo. Questões como a questão da flexibilização das leis do trabalho, o papel do Estado como agente direto do desenvolvimento econômico, a redução da dependência brasileira em relação ao mercado financeiro internacional ou ainda a quebra do monopólio estatal do Petróleo e o atual debate sobre a venda das reservas petrolíferas por parte da Agência Nacional de Petróleo nos remetem à herança getulista.

Atualmente, vivemos uma situação um tanto paradoxal sob a égide do Governo Lula, na medida em que as soluções apontadas têm aprofundado as reformas liberais-sociais anteriormente questionadas pelo Partido dos Trabalhadores, ao longo da década neoliberal de 1990. Sob a hegemonia do capital financeiro, os atuais governantes do Palácio do Planalto vislumbram ações para os nossos problemas num sentido diametralmente oposto ao discurso nacionalista. As esquerdas nacional-estatistas, um tanto aturdidas, voltam a se mobilizar, especialmente com as greves dos servidores públicos federais nos últimos dois anos e a reiterada combatividade do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Talvez a persistente presença getulista no cenário político nacional possa ser explicada, em parte, por seus fortes vínculos com a idéia da construção de um Brasil moderno. Cabe lembrar que o campo de luta política hoje ainda está em aberto, no qual trava-se o embate entre valores liberais e as propostas democráticas da tradição nacional-estatista, pois, definitivamente, as lutas em torno de um projeto de nação ainda não se tornaram um passado que passou (REIS FILHO, 2004: 39).

* Departamento de História/UFS, Doutorando em História Cultural pela UnB

 

BIBLIOGRAFIA

LIMA, Valentina da Rocha & RAMOS, Plínio de Abreu. Tancredo Fala de Getúlio. Porto Alegre: L&PM, 1986.

MATTOSO, José. A Escrita da História: Teoria e Métodos. Lisboa, Editorial Estampa, 1988.

SANTOS, Rosemary Bomfim. Entre a Dor e a Revolta: O Suicídio de Vargas e os Protestos Populares em Sergipe (agosto de 1954). São Cristóvão: Departamento de História/Universidade Federal de Sergipe, 1999 (monografia de graduação).

REIS FILHO, Daniel Aarão. O Estado à sombra de Vargas. Nossa História. Rio de Janeiro: ano 1, n. 7, maio 2004.

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