Lula, Maria da Penha e Guam.
11/08/2017



Jacob Piroga, Verne Pedroso e Clemente Jatobá estavam a discutir os grandes problemas internacionais e locais, enquanto andavam no saibro dadivoso de Aruana.



O Sol lhes abençoava a derme e a epiderme, em promessas longevas de muitas vitaminas D e E, e em juras de melhor catálise.



Queriam a absorção cálcica de seus já longevos esqueletos fulminados pela crescente osteoporose.



Inflexibilidades outras à parte, desejavam, todavia, que por esperanças quiméricas de resistências as teimosias e indolências anaclíticas dos contumazes decaídos e pendurados, chegassem também do Sol por melhor anseio de remédio, algo que lhes acrescesse a libido, sonho comum de velho reclamador e saudosista, assaz corretor de costumes e contador de feitos inúteis, que não mais deixando rastro nem comum saudade, já deviam e estão, tão perdidos quão esquecidos.



Entretanto, se o desejo e a tesão os rareavam, reacendia-se neles o velho lampejo de viverem a corrigir modos e costumes, com se vissem no novo, somente a degradação de um mundo sem esperança.



Em verdade, tudo lhes era assunto para esforços memoriais em revérberos de bons proveitos ou de reaproveitos gerais para que, em papos recorrentes dos que viventes persistentes insistissem tentando vencer os cansaços, as fadigas musculares, as tristes e inexoráveis elevações dos índices glicêmicos e os açúcares incontroláveis.



Estavam, portanto, os três, remendados e pelancudos, tentando vencer os novos tempos bicudos em regimes e esforços inúteis, atendendo os preceitos uníssonos dos seus esculápios.



A receita era a mesma; para os três! Exercícios, dieta saudável e pílulas a granel, no jejum, no almoço, no jantar e ao deitar.



Pílulas e mais pílulas, acompanhadas de sangrias diárias no dedo, variando-os do polegar ao mindinho, sem esquecer do safado maior de todos, do apontador de todos os vícios, do fura-bolo, do cata-piolho, do anelar ou outras falangetas mais, alternando-as no jejum e no pós-prandial.



Sem falar de outras coletas venais; quinzenais, mensais ou bimensais. Nas artérias, radial ou ulnar, por mais dorida, e quiçá na jugular.



Estavam os nossos três heróis chutando areia salgada, tentando pisar um siri descuidado, uma intã, uma água-viva ou caravela, fazer um pequeno esforço físico matutino, jogar conversa fora, tudo aquilo que em conjunto lhes parecia repositório de uma melhor farmacopeia para a conquista de uma vida longa.

Não fora assim que Jacob Piroga, Verne Pedroso e Clemente Jatobá desejavam, quando ainda não eram setentões, gozando o “otium cum dignitati”, como é comum dizer da aposentação enquanto douração do cobre azinhavrado, misto de tristeza e desimportância dos que se empoeiram nas estantes inservíveis, e que, por pior e lamentável, estavam, logo agora, no restinho da vida, a receber em parcelas os ralos proventos conquistados.



Se Jacob Piroga, ex-magistrado, não reclamava dos proventos auferidos, tinha apenas uma tristeza que a todos excedia. Faltava-lhe a deferência de outrora, a subserviência dos comuns mortais, as mordomias de paletós e moradias, tudo aquilo que somente vige para aqueles cujas atividades têm melhores garantias.



Se mágoa havia, só a explicitava junto a si e a seus muitos próximos. Execrava o Ex-Deputado Eduardo Cunha, “aquele bandido” que presidira a bem falada “pec da bengala”, que ampliou a aposentadoria compulsória dos setenta para os setenta e cinco anos de idade.



O outrora bem festejado, Dr. Piroga, não tinha sido amparado pela bendita PEC por poucos dias.



Logo ele que tinha um vasto repertório de decisões e pareceres da lavra de sua assessoria?



Uma inteligência lúcida, exceção à regra, que só não foi vivamente saudado na sua despedida, porque o seu sucessor fora um desafeto, para seu pior lamento.



Logo ele que agora se via às birras com sua mulher, inúteis ambos, a discutir coisas comezinhas do lar, como fazer feira, pilotar um carrinho de mercadinho, providências em que se desacostumara, afinal os que antes o serviam com eficiência e préstimo, gravitavam, com igual modo e maneirismo, o poder que o abandonara.



Já Verne Pedroso, olvidado profissional liberal, agora com clientela menor, lembrava de seu sucesso como político destacado em mandatos repetidos, tão esquecidos, quão pouco reconhecidos.



Ele que fora um combatente fervoroso das “Diretas Já”, do “Fora Collor”, da rejeição à PEC da reeleição de FHC, tudo aquilo que vingou, como a festejada “Lei Maria da Penha”, agora fazendo onze anos, sem receber um naco de bolo, uma vela soprada, um reconhecimento qualquer por necessário, sem falar na reeleição perdida, e várias vezes tentada, em tantas causas desperdiçadas.



Nos debates da Lei do “feminicídio”, este palavrão bruto inserido, ninguém mais recordava do seu debate contra um colega gaiato que citara Nelson Rodrigues gritando: “Toda mulher gosta de apanhar, menos a neurótica. O homem é que não gosta de bater”, a sua maior heresia.



Pedroso, poderoso e vaidoso, fora quase às vias de fato com o colega venenoso e caviloso.



E já por glosa de fim de prosa, do debate e do mal palato, como resultado do fato, quando se convocou o eleitorado, seu combatente renovou o mandato, enquanto ele perdeu na raia e sobrou na praia, mareado como nunca pensara.



E agora em outra praia estava Pedroso querendo lamentar o atual noticiário político, repleno de deslizes, com Lula chegando a Sergipe para receber a homenagem talar da nossa Universidade Federal, como explícito Doutor Honoris Causa.



Logo Lula; “um marginal!?” Gritava Pedroso, sem lembrar que os escândalos vinham de longe, do seu tempo de parlamento, inclusive.



Destoando no trio praiano, só Clemente Jatobá, pouca coisa tinha a dizer.



Fora um contínuo, nada mais que um contínuo, comum personagem das peças de Nelson Rodrigues.



Nunca ousara a verve rodrigueana que exasperava as feministas.



De mulher ele entendia; sabia agradá-las, compreendê-las, nunca as deixara carentes.



Diziam que ele era um contumaz namorador, nunca prometendo fidelidades eternas.



E por causa de suas prévias definições, por premissas de conquistas, nunca fora acusado de mal proveito.



Bem diferente de seus amigos Pedroso e Piroga, sempre rejeitados nos seus entreveros amorosos, inclusive com casamentos desfeitos e mulheres sempre malsatisfeitas, em excedente reclamação.



Jatobá muito bem conhecia o olhar de uma fêmea em suas carências e desejos.



As mulheres são tão simples, pensava ele. Nada lhes fazia melhor carinho que um cheiro bem assestado nos seus cangotes. Qualquer um deles, pensava.



Seu problema era outro. Nunca fora nada. Nem teve poder, nem adquiriu fidalguia.



Fora um homem sem serventia. É verdade!



Um coitado, diriam alguns, inclusive os seus companheiros Pedroso e Piroga, se não o ofendesse naquela amena praia.



Um sentimento que de igual modo Jatobá lhes devolvia, porque nenhum como ele fora tão assaz e voraz namorador.



Para seu afago, toda mulher lhe era bela, qualquer uma lhe servia.



Ninguém lhe resistia à fala mansa, seu jeitinho de quem nada deseja, e nesta peleja faturara muitas, verbo que rejeitava, preferindo amá-las sem limites, em troca mútua de carinhos.



Não lhe importava se era gente alta, gente fina, bem letrada e bem fornida, se loura, branca ou morena, a chave sempre lhes bem coubera em qualquer fecho ou fechadura.



Se Piroga, em barriga enorme, não mais conseguia contemplar a própria verga, e lamentava nunca ter conseguido arremeter o seu dardo hesitante na sua secretária incompetente, mas bem fornida de coxa e glúteo, Clemente Jatobá, sem falar latim, nem exibir floreios, lá ti enfeitara muitas vezes, sem contumaz resistência ou qualquer violência.



Se existia o pensa-mansinho, como se imaginava o Pedroso perigoso. Perigo mesmo era Jatobá Clemente, o come-calado, a exibir para si próprio o seu naipe de conquistas, coisa que arrefece também com a falência dos caídos.



Mas, de que falavam os três amigos?



Falou-se de Lula, da Lei Maria da Penha, e até da Constituinte de Maduro.



Estavam agora a falar de Guam, a perdida ilhota no meio do Pacífico Oceano, no noticiário divulgado, como melhor alvo de pontaria do Ditador Norte-Coreano, King Jong-Um, para seus foguetes destambocados.



Nunca se vira tanto debate nas praias de Atalaia sobre as estratégias bélicas de Trump e King Jong-Un.



Pedroso e Piroga falavam sem parar do pequeno pedaço de terra em que residem 160.000 pessoas, paisagem estendida de terra com cerca de 550km2, pouco mais que a área de Socorro, o território americano mais afastado do continente, um ponto estratégico para Washington e Pyongyang.



Trump ameaçou a Coréia do Norte com fogo e fúria, comentava Jacob Piroga e Verne Pedroso, um execrando o americano e outro esculachando o coreano.





Foi quando o paciente Clemente concluiu a conversa a sua moda Jatobá.





- Vamos embora, meus amigos. Desse louco Trump, só uma coisa me chama atenção; o olhar de sua madama. Vejo nele um pouco de tristeza, um padecer. E eu sei o que lhe falta.