De Medusa aos dias atuais:
11/09/2017



Autora: Larissa Ferreira Ferro



Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação – UFS



e-mail:larissaferropsic@gmail.com 



  Vivemos em uma sociedade marcada por padrões sociais, e estes se assemelham ao mito grego de Medusa, uma das mais belas sacerdotisas do templo de Atena. O seu envolvimento com Poseidon despertou a ira de Atena que a transformou em monstro, passando a possuir serpentes na sua cabeça e o poder de petrificar todo aquele que olhasse diretamente em seus olhos. Esse era um mito na Grécia antiga. Nesse texto não teceremos diálogo sobre a história de Medusa, mas a partir dela faremos uma analogia sobre a forma como as mídias atuais petrificam os corpos, dentro de modelos preestabelecidos, e o papel desempenhado pelas tecnologias na estruturação de padrões de beleza, que funcionam como auto promotores do que pode ou não ser considerado belo. A exposição exacerbada, a busca pelo enquadramento dos padrões estabelecidos na atualidade, nos coloca dentro de uma corrida em busca do “belo”. Não é mais Medusa quem está petrificando os sujeitos, mas as lentes das tecnologias que instituem e julgam padrões petrificando modelos estéticos nas várias formas discursivas.



             A indústria cultural influenciada pelas tecnologias, produz o que pode ou não ser considerado belo, ditando tipos de corpos ou características para cada um deles, haja vista as várias formas de manipulação a que estamos expostos diariamente, que acabam instigando e produzindo idealizações do corpo perfeito. A indústria médica investe em técnicas e tecnologias que visam concretizar essas idealizações, tornando o corpo um espaço mercantilizado. A idealização do belo impõe padrões fixos de corpos, no entanto, o belo não está formatado em padrões preestabelecidos, não é algo fechado em formas fixas, essa ideia de belo se configura como a busca pelo encantamento de uma pseudo-realidade.



        A partir da exposição de propagandas e produtos que sublinharmente ditam modelos a serem seguidos, os meios de comunicação tornaram-se os detentores do considerado belo. O destaque do mito de Medusa diz respeito a como o olhar do outro pode nos “petrificar” dentro de uma busca pelo corpo perfeito. Basta olharmos para a realidade brasileira em 2014, quando o Brasil ocupou o primeiro lugar nos países que mais realizam cirurgias plásticas corretivas, superando até os Estados Unidos 1. Neste sentido, cabe pensar até que ponto a sociedade atual busca petrificar-se em padrões de corpos esculturais ou formatados dentro de padrões pré-estabelecidos.



           Salienta-se que a tela da modernidade acompanha o momento histórico de cada época, trazendo a ideia do que pode ou não ser considerado belo. É essa mesma tela quem institui respectivamente padrões de beleza, étnicos, paradigmas que anulam os sujeitos que não estão inseridos em determinados padrões. Tentar alcançar padrões formatados do “ser” através dos discursos midiáticos é desconsiderar as várias transformações sociais e caminhar na estrada da fantasia. O discurso de poder acerca do belo que a modernidade detém acaba determinando “quais são, em seus mecanismos, em seus efeitos, em suas relações, esses diferentes dispositivos de poder que se exercem, em níveis diferentes da sociedade, em campos e com extensões tão variadas” (FOUCAULT, 2005. p. 19). Em todos os espaços as relações de poder se fazem presente, e estas produzem efeitos. São esses efeitos que acabam desencadeando uma busca exacerbada por corpos petrificados dentro dos padrões culturais estabelecidos socialmente.



           A ideia de um modelo de corpo petrificado em características fixas, está expresso nas várias figuras do ser, seja nas questões de gênero, índio, deficiente, negro ou de crenças ligadas ao divino. Menciona-se que esses paradigmas de sujeito foram se modificando com o passar do tempo, e a idealização de figuras em padrões formatados, em enquadramentos idealizados configura-se como uma ideia encantada. A singularidade do ser, dentro da sua diversidade, rompe com quaisquer estereótipos de normalidade instituídos. Dentro de mitos de padrões formatados por instituições que definem o aceitável na sociedade, qualquer forma de enquadramento em modelos estabelecidos socialmente torna-se danoso, haja vista que sempre existirá divergências entre o real e o fictício.



           Ao longo do tempo várias transformações sociais ocorreram e consequentemente surgiram várias políticas para “mediar” o convívio com o diferente e as diferenças. Porém, ainda nos deparamos com estéticas presas em estereótipos criados que não condizem com a realidade, e que acabam gerando situações preconceituosas. Os enquadramentos petrificados pelo desrespeito ao diferente e as diferenças geram os mais diversos tipos de adoecimento.



           Portanto, o mito da Medusa conta que ela morreu decapitada, porém, sua cabeça e as cobras-cabelos continuaram ativas, tanto que Perseu continuou a utiliza-la para libertar a princesa Andrômeda do seu próprio sortilégio. O mito da Medusa trás a petrificação dos corpos através do olhar do outro e nesse sentido, faz-se necessário olhar o outro, não como determinação a ser seguida, mas para que possamos através dos olhos dele, quebrar com os cimentos ideológicos que podem custar a nossa própria cabeça.



1 -  Informação retirada do jornal Folha de São Paulo.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



COLLUCCI, Cláudia. BRASIL ULTRAPASSA OS EUA E SE TORNA LÍDER DE CIRURGIAS PLÁSTICAS. Folha de São Paulo - São Paulo, 29.07.2014. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/07/1493030-brasil-ultrapassa-os-eua-e-se-torna-lider-de-cirurgias-plasticas.shtml. Acesso em 10. set. 2017.



FOUCAULT, Michel. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005. Trad. Maria Ermantina Galvão. 4ª ed.